segunda-feira, 4 de maio de 2009

O TREM DE FERRO


O trem que, menino
do Rio de Janeiro me levava
rompia ventos com a impaciência
que ao fim da jornada antecipava.

Café-com-pão, piiuuiiiiiiii...

Apenas eu ia absorto e inteiro
e o maquinista
na curva, ia apitando.

Eu só imaginava, pois que não existia
(não se via) nenhum maquinista
nem curva.

Havia somente o dia se dissolvendo ligeiro.
Olhava pela janela e engolia com o vento
o momento passageiro.

Não dava contas
na viagem
dos contornos da serra mineira
(que agora recupero na lembrança)
disperso que estava na sacolejante
monotonia da paisagem.

Súbito, como no sonho d’Alice
o meu olhar se fixava na casa pobre
de taipa, que se via
bem no meio da planície verde.

A casa, já entrada no escuro da noite
pela lenha que ardia no fogão
em magia, se alumiava.

Tinha um olhar conspícuo
(a casa) um olhar de eternidade
e vigiava o trem de ferro
em que também viajavam
as minhas conjecturas
de criança
inócuas, inócuas.

E o trem, já então na lonjura
com a pressa da chegada
ainda, em cada curva
parecia que apitava.

POEMAS ETERNOS AO VENTO


Ode à Neftalí Ricardo Reyes Basualto (Pablo Neruda).


Os ares madrigais que varejam o atlântico, dizem, poeta
de seus disseminados ventos, andinos, cegos, ressonantes
ventos que percorrem prados altos, plantações de trigo
e que balançam os longos cabelos das moças índias.

Há tempos que tais ventos vagueam por liberdade
esta musa, que, perseguida pelos infames é almejada
pelos poetas e vive no anseio que não se finda
dos povos do americano continente.

Procuro-te poeta pelos charcos clandestinos
pela pátria esquecida, pelos rios, veias rubras d´aurora.
Sobre igarapés, voam colibris e maritacas buscando o néctar
e os grãos. Já os visionários, seguem em direção ao poente.

Faz-nos falta o poeta da fome e da chuva, o poeta dos estios
da crepuscular dinamite, o pavio, o poeta das visagens telúricas
da noite, alpinista dos altiplanos de versos solares e sombrios.

Saciedade é a palavra que te revela
no alentado sentimento hermano.
Vida que cantastes em odes cheias
à labuta nas minas de cobre, estanho e carvão.
Que cantastes na canção do sal, nunca hermético
ao sentir dos injustiçados.

Teu poema argila vai modelando a vida
processando no desejo da luta líquida e contínua
e é servido em arpejos de anjos
para a consumição existencial.

Diz-me poeta de Antofogasta e de Parral:
- Que lhe diz a meia-noite profunda?
Tenho chorado, tenho chorado!
Teu povo americano (já éra hora) quer de novo canta-lo
numa ária gauchesca
como pluma atonal
num canto que enseje o poder de alcançar-te
nas plagas do ateu firmamento em que habitas
o poema eterno.

É hora de levar-te em passeio, do Chile às Minas Gerais
em visita a outro poeta, de outra tragicidade, de alma mineral
como a tua, plena de ferro e nuvem.

Retirar-te-ia um pouco de tua navegação
no sombrio pacifico de águas frias e perigosas
onde velejas como gostas, guardião de fronteiras
do Ethos latinamericano em formação.

Teu barco, teu verso de serenas sedas enfunadas
nos mares canônicos da beleza ocidental.
Odisseu redivivo de esperanças, deves ver de novo
os grandes condores do sul continente, aos pés da Patagonia.

Estes pássaros estão descendo
as paredes de montanhas de tua pátria
para selar o teu testamento de amor.

Escrevestes na consciência do tempo tuas odes
teus poemasde amor, promessas de um arrebol sem vilipendio.
Ecoam hoje sobre as nuvens das sensibilidades
no farfalhar da feira de Valparaiso
ou na Europa Setentrional
e também aqui no Brasil
de onde te revisito em poesia e pensamento.

Há um canto novo que todos os que quis ver irmanados
cantarão a uma só voz; toda a vida na mesma elegia.

E devemos cantar o poeta, antes mesmo que a poesia.
Vejo os ativos obreiros na zona industrial.
Vem e vão à construção de casas ricas
subindo paredes nuas.

Vejo crianças correndo à sorrelfa
mulheres livres e as moças pudicas
fervilhando pelas ruas.

Pergunto a ti, poeta: - Desde quando se descobriu
amando assim a teu povo? Onde mais é que se viu
um amor assim, tão probo? Um amor profundo, Isla Negra.

Aquele que te esqueceu, agora te reconhece
no cimo dos edifícios, cordilheiras urbanas
no lácio, nas oficinas...

Teu nome é cantado nas publicas Ágoras de maio
por gerações operarias no mundo inteiro.

Mas nós só pudemos cantá-lo hoje, pois o Chile tricolor
mereceu o esquecimento, a fuga das consciências relevantes
e esteve entregue a uma elite vil e conservadora.
Morreu o Chile da Unidade Popular, quando mataram a tua presença
e juventude, quando se calou Violeta Parra
e da lira maiakoviskiana de Vitor Jarra
fluiu a sua toda essência na dor do povo dizimado.
Morreste tu, oh, poeta, para ficardes etéreo
e vigilante como a um andino vento.

Um dia, há poucos anos, a TV mostrou-nos juizes ingleses dando motivos
desde o centro do império, para crer na justiça: - O monstro do Chile
perdia as suas imunidades!

E antes que as recuperasse por artes da política
em nome da “normalidade democrática”, rimos, gozamos
e nosso maior regozijo foi ver as mães ofendidas no ventre
no grito calado e no olhar triste, roubadas nas noites insones
sorrirem, sorrirem, em um muito franco sentir de alegria.

Agora nos dizem os jornais: - O maléfico verdugo do Chile
chega aos seus estertores! Que morra logo, tal verme
e leve sua semente para um solo calcinado
para que não corramos o risco de que lhe fique lembrança.

Desce aos infernos, carrasco! As humilhações do inglês desterro
em nada se comparam à orfandade promovida
crianças ensurdecidas de medo
para as quais o Lacaio dos Ianques
destampou a Caixa de Pandora
obrigando-as a que ouvissem os lancinantes gritos dos pais
cantantes da humana ventura chilena.

Tomemos um vinho do Valle Central, poeta
pois a dor que durou decênios
anuncia que a nossa fraqueza
não é mais do que força e virtude.

Não durou, o morto-vivo, mais que tu
que perduras eternamente, poesia, mais que poeta.

Sepultemos estes tempos no eterno esquecimento
a mais humana das soluções.
Nossa flama pequenina vai agora florescer.

Vem poeta Neruda, venha ver!
Acorde também a Allende
para o renascimento do Chile.
Já se derramam pelas cordilheiras
quedas de lirismo (aonde antes
só dor e desesperança), águas que vão
ao coração do pacifico
encontrar com os ventos nobres
de Frida Khallo, que vem vindo, vem vindo
desde o Valle do Yucatan
de onde a voz da liberdade, ainda nos pode alcançar.

UNIVERSO OCULTO

Teu beijo
escasso
mostava
os dentes

enquanto
teu verso
curto
deixava
entrever

estrelinhas
nas
entrelinhas.

A MULHER DO QUARTO BRANCO

Recordo quando mirava
em abandono e transe místico
teu corpo nu, puro e branco
como a beleza simples de um vôo
definitivo como a evidência da partida.

Por alguns segundos, eras a aparição
da virgem, com os pêlos à mostra
de tez tão clara, com tão intensa fugacidade
que num sopro explodias, divinal melancolia
teu orgasmo sobre a noite
reacendendo o fulgor de um pleno dia.

Como rememorar este teu corpo
lânguido e pecaminoso?
Como olvidar o teu pranto
que nos devolvia a brisa
pelas artes de uma oração
à tarde quente?

Lembro-te como um vento brando
viração, aragem
fazendo fremer de maleita santa
as imposturasde minha lasciva carne
minha alma perdida
e os objetosde teu quarto branco.

RODAR CATIVO

Os minutos se passam
quase audíveis
em refrão recorrente.

As horas se somam
plausíveis
cheias de promessa e sem nada deixar.

Os dias escorrem
entre os dedos
ceifados do calendário
e cerzidos na pele dos homens.

Os anos morrem
Amiúde
a cada manhã
retirados das pretensões gregorianas.

Como um filete no engenho d’água
os minutos, as horas, os dias e os anos
num rodar cativo, errático desperdício
incontrolável, surda repetição.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

SOBRAS DE UM TEMPO GRANDE

A Manuel Bandeira

Lançava mão dos silêncios
na noite, entre os meus
fantasmas.

De sapos que não mais havia
inda se ecoava o coaxar.
Adornada de estrelas
a noite divina e suave,
platinava.

Ah, sapo cururu
de minha infância.
Aonde foi parar?
Onde é o teu leito de rio?

No céu argênteo
de uma media luna
guardam-se poucos mistérios
da dimensão de minha ânsia
e da espessura das sobras.

Segui em passos ensaiados
na beira do charco, no chão.
Não existe mais saparia
nem mesmo o cio estelar.
O que ainda busco aluado?
Afinal, para que lado
a minha Pasárgada?

Como o pecador
do fim dos tempos
como um sufí delirante
conduzo o meu destino
em silencio
ao alvor da luz de velas
num rodopio bailado.

terça-feira, 28 de abril de 2009

SACRO AMOR PAGÃO


Tenho por ti, meu amor
adoração.

A devoção vermelha
que se deve às coisas raras.
Honrando-te
me dobram os joelhos
em circunflexão à santa
minha santa pagã de oratório.

O que sinto ao teu lado
dizer, portanto
redundaria em palavrório.


Só sei que não é como no céu
tampouco como no purgatório.

Ah, se eu quero mesmo ser conciso
mesmo que o Deus desde o pálio me castigue
Amar-te muito mais se assemelha
a um pleno e adâmico viver no paraíso.

Evoé!

Saiba que a sua visita e o seu comentario dão sentido a este espaço, que alem de divulgar poemas, quer conversar sobre a vida. Esteja em sua casa.

Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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