segunda-feira, 9 de novembro de 2009


HOJE

ESTOCOLMO

MAS
JÁ FUI
MUITO

IRAQUE


Poema do grande Clown e Poeta Dalmo Saraiva

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

POEMA DO DESCONTENTAMENTO


Cansei de viver metade
metade do tempo
metade do amor

de dizer meias verdades
e não ser íntegro comigo mesmo
não ser inteiro, conciso.

Cansei de buscar sentido
em bebidas, pernas compridas
em distâncias: chegadas e partidas

em sair desesperadamente
pra outro lugar sem saber por que
sem nunca encontrar.

Cansei de viver aos bocados
obter parcelado do nada
viver como pedinte

coadjuvante de mim mesmo
considerado estúpido
menos, pouco, irrelevante

engolir o cuspe seco
o sangue, o choro, o dia.
Violentar o próprio corpo

com sorriso nos dentes
desperdiçando o melhor de mim.
Cansei de ser assim.

Fabiano Silva PA

domingo, 1 de novembro de 2009

O Alvor e o Breu do Amor


Se há lua por acima, no céu
E sobre o mar, sobre o deserto
Porque tu vais para tão longe
Se de ti, cá, eu estou perto?

E se a lua é, portanto
Este puro alvor, um puro encanto
Linda, que linda e perdida
No insofismável do breu...

Para dizer-te de meu amor
Nada mais há que me oprima.
Descabe aqui a escassa rima
Para o já precário verso meu.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A FISTERRA




E haviam-se lá os franceses, como noutro tempo os ingleses
E sabem bem, os romanos, às voltas com a egrégia lida.
Vão soerguer por mil vezes a civilização do ocidente.
Assim rompiam então os anos que solitude lhes traziam.

Ao sentido gregário da vida, ao arcabouço do pensamento
À ideação inscrita na mente e desde a helade filosófica
Ou desde os antigos templários, nos umbrais da Arcádia romena
Indo dos Bálcãs desérticos, aos píncaros Alpes, novos ares.

Já lá haviam nas festas nórdicas
Povos tais que edificaram a Europa
Presentes na céltica Escócia
Nas piras funerais de heróis mortos

Os gaélicos edificaram a Europa
Embora, por poetas, não quisessem
A concentração de poderes
A industriação dos impérios
A inventiva dos engenhos
A expansão dos domínios
Como na era pré-burguesa
Expandia-se sobremaneira

A submissão dos corpos ao segredo e todo o comércio de haveres.
Exerciam a dominação dos mistérios, vaticinados ao vagar errante
Acalentando-se por artes, sortilégios iniciáticos
Hábeis mascates do sentido, nas planícies, nos bosques e prados

Habitando aos montes breogántinos, viviam no interior dos nevoeiros
Por entre carvalhos minhotos, se iam medievais calaveiros
Que cavalgavam alem dos vales, que toavam Canções de Amigo
Pelas encostas de Portocalli

Eram poetas, eram mouros, cantantes, cristãos novos ou ciganos
Almas celtas, desde a Bretanha, salvo engano, nos cantões
Entre vivos, nos rochedos, seres da brenha entre arvoredos
Entre mortos, atávicos espectros, inda outros tantos vagavam
Distantes de nós ou tão perto

À razão do maior dos enganos, vivendo ao vigor dos acertos
Correndo, não em busca do ouro, mas polo sonido ou por brilho.
Povos crédulos que vertiam prantos ao colo da nai olvidada
E que a belos cânticos atendiam, libações na floresta druidesca

E tratavam-se todos por lobos, uivando à lua, à tristeza
Tocados assim, deste mundo, um mundo varrido por guerras
Ficava a Nação Leonesa, de um povo marcado e pacífico
A espera de cumprir o vaticínio e salvar a língua portuguesa.

No bruar benfazejo da poesia, seguiram sem alvoroço
Polos mundos na promissão, e por serem só os que erram
Viram-se na beira, na Ibéria, lá onde a terra se acaba
Ao marco de um novo começo, chegados são a Fisterra.

Promontorium sacrum, desde a selvagem rudeza
Dos ventos suevos de Vigo, ali, a herança neolítica.
No Porto da Gália, Gallaecia, áridos confins não-castelhanos
Os nômades galegos, Galiza, da larga pátria intima, defronte

Aos portugueses ares, os que sobraram, sobejos
E que ficaram a ver navios nos portos
Donde o sol, ferro em brasa
Extinguindo no mar, no horizonte
Alem, nas praias peninsulares
Onde pisavam os homens nos seixos
Na rarefeita vegetação, os desejos

Desejos barrocos caídos no chão
E na pressa, os homens seguiam sem beijos
Pisavam nos turfos esparsos, ali
Era o prelúdio de uma vocação

O melancólico abandono dos lares
Que remota casa já perdiam
Remotos, do mar, os caminhos
A que se lançavam desde o Minho

Pelo Tejo - e d’alemar? o que virá?
“nada nós vemos”...diziam
“de coisa alguma sabemos, a não ser que
no velho mundo, nada mais a palmilhar”.

A insuspeita aventura humana
Equivalia a se lançar ao incerto
Às descrições virgilianas
Na coragem maior que já se viu

Montaram, pois, na burrinha
De sua maior riqueza
- a esculpida língua portuguesa.
Da antiga cultura romântica

E saíram-se pelo mundo a fora
Ajudaram a formar o Brasil
E o mundo d’ocidente
Alegres e tristes heróis de ventura

Reservados como devem os cientes
De lôbregos segredos, os que não soçobram
Aos reis vis de Castella
E seja o homem virtuoso

Seja a mulher de pia fronte
Foram povoar o novo mundo
De nós, tão longe e tão perto
Que não se lhes acusem o medo

Pois se partia do porto ao sol cedo
A transitar o mar aberto
Para alem do horizonte
Em velas enfunadas de utopia

- ao chamado de sermos
Todos nós os galegos

sábado, 24 de outubro de 2009

CIRANDA


roupa de missa
primeira comunhão
batizado
quermesse
almoço em família
frango assado
macarrão
tutu à mineira
pudim-de-leite
“Hoje é domingo
Pé de cachimbo”...
vassoura atrás da porta
espanta visita

o anjo da noite
vara o tempo...
...”A gente é fraca
Cai no buraco”...
perde mãe
pai
não reza
vira ateu
engorda
“Come o pão que o diabo amassou”
e na segunda começa dieta
...”Buraco é fundo
Acabou o mundo.”

então...
uma simpatia
livra-nos do fastio
de sermos adultos
para sempre

Fátima Cerqueira / Juíz de Fora, MG

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

amor natural

quero um amor comum
que só me encante
que nunca me inquiete
um que não me conte
as horas
nem que me conte
os silêncios mudos

quero um amor comum
teatro minimalista
em que cada gesto
nada signifique
alem dele próprio

quero um amor natural
amor no banco da praça
de mãos dadas
leve e profundo
não, não quero
mais nada

só quero
um simples amor
para mudar o mundo

Poema erótico sobre a mulher, o mar e os quatro elementos

O poeta fora amar
uma mulher na praia
na pedra de minério
junto à arrebentação.

A onda se afirmava
na horizontal
vinha vindo, vezes sim
vezes não.

Na espuma branca
pululava
quase fonte, enxurros
da acidez de sal.

Pelas fendas
de recônditas rochas
o poeta observava
voyer, à ondas se armando
em vivo sexo elemental.

No longe, n’alto-mar
defloradas na premência vã do agora
iam-se como marolas
que choram.
e a vaga de ontem
era como se fora
a sumula da que
seria a de amanhã.

Era como um gozo
continuado, múltiplo
interminável de amor
tal qual só podem
homens e mulheres que se amam
em um furor de fogo
e que se sugerem
sempre ao sol restante.

Mais do que a eternidade
restava ali
um único instante.
Os seios da mulher
já pontuam eriçados
prontos ao roçar do dente
ao frescor dos lábios.

Sob a penumbra noturnia e bela
ofereciam-se à sombra da noite.
Mas pousava o olhar, o poeta
que se cria sábio
no remanso esquecido
do quebra-mar
sobre a pedra.

Na avidez perdida
de Eros, o amor proposto
então já ardia
consumação de Poseidon e de Fedra.

E vinha no fluir do vento
ainda mais algum elemento
a lembrar o pecado capital.
A maresia e no ar o aroma
de caju suculento ou romã.

Disposta e languida na areia
a mulher esquecida, perdida
pedia a brisa e o vento
para se aliviar
da secura da canícula.

O frisson do corpo
os beijos vadios
na pele da nuca
no bico do seio.

Infinitivo do amor total.
Nunca o vértice entre
as suas pernas
fora mais ardente
e sensual.

Era como um figo
maduro e aberto, exposto
sua rugosa vermelhidão
que exalava, aguava-se
para a devoração da língua.

Ah, poeta! Que péssimo amante!
Ali a mulher deixada à míngua
e seu olhar resvalando atônito
do corpo líquido e quente
perdia-se no tirocínio da mente
perdia-se na observância inútil
da lubricidade inconsútil do mar.

Evoé!

Saiba que a sua visita e o seu comentario dão sentido a este espaço, que alem de divulgar poemas, quer conversar sobre a vida. Esteja em sua casa.

Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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