sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cantoria

Cantai! Nada te apresse mais.
Não inquiete não ter onde ir.
As frases não ditas caíam
como almas feitas una,
sementes ao solo,
novel verdejar,
ecoando anosos desejos
nos jardins à florir.

Cantai os delírios de poeta.
Cantai numa opera de gestos.
Os hinos célticos, cantai.
Tecei loas à Deusa Fortuna.
Os pássaros sobre os pomares
que dancem aos Ventos Alisios
e que estirpem do peito o desatino.
O presente momento, dedica-o
aos Deuses; à Dionísio Dendrites
que ainda haverá de vir, pois o amor
é como o vinho: Sempre prevalece
sobre o tempo.
E o Deus far-nos-á espelhos da eternidade.
Nunca se abandone, nunca se esqueça
de que há um constante fluido a renascer
como no ruído da agua corrente
renasce a poesia, e na alegria de um menino
que brinca sozinho,
estão as épicas lembranças
da Batalha de Alcacer-kibir.Cada homem no mundo
é como Dom Sebastião, o infante:
Uma mó solitaria rodando alhures
em roda do proprio pino
e que mesmo sem se dar conta
faz mover os moinhos dos sonhos,
faz o fubá nos monjolos,
a agua e o vento à correr constante.
No tear da vida, nas urdiduras
do proprio destino.

Poética III


A poesia que sai de mim não tem cor,
branca e lívida como eu, exangue.
É melhor mata-la com um tiro no peito,
do que vê-la perder-se num poço sem fundo
procurando o senso médio de sua arkqué
perdida em tédio no meio do mundo.
A poesia que farei, daqui para a frente,
revelará profundo como o Chico Buarque
o ente lírico de todas as mulheres do mundo
e não vai rimar na pobreza amor e dor.
Que asco! Deixará em paz flor, vernáculo e mente,
sem viscosidade, sob fartas doses de remédio para o senso.
A poesia moderna não terá ritmo e nem poética.
Não vai servir à leitor condescendente.

.........................


A culpa pequeno burguesa do beat mangue
não ansiará pela noite negra, sem cor
nada dirá do blackisbeautifful, nada
nada do afro-reague, HipHop, DJs, MCs, Funk.
Nada, nada, nada.
Só será poesia se tiver
a cor inexistente da tarde,
o lapso da mnemesis ardente.
A memória das pedras no caminho, quero ver
para evitar os tropeços e na retina as reter.
Drumondianamente, quero a poesia da paz
dos cemitérios sobreviventes.
O poema roto do fim do planeta;
nenhum para o seu recomeço.

Ah, já me cansei de mistérios iniciáticos.
Não quero mais o coração como tema.
Quero-o rubro pulsante, traspassado
à medieval lança, expostas as coronárias azuis.

.......................


Sem cateterismo literário, submergir
na lambança do linfa,sangue e pus.
Quero a poética das emoções comuns.
Emergir no soro de veias abertas
na ácida droga da madrugada infesta.

O meu poema, que siga-me à revolver
o minhocário com as mãos.
O cheiro úmido da terra; a morte amiga
à espreita.

Que me siga a perseguir
a calma desejada
pois já não consigo coisas
alem da petulância do existir
em um oceano irredento
e sem surpresas.

Do futuro, só o plano de plantar
Cajueiros e pés de Lima da Pérsia
ou belas arvores florais
em um restrito terreno
na Região dos Lagos,
para colorir o cenário
de minhas poesia
(enquanto astronautas dominam
as frias estrelas do céu).

Poética II


Eu faço poesia
com os eflúvios
de um sentir universal
helênico.

Faço-a para velar
a musa em repouso
ouvir o silencio
mesmo sendo o poema
matéria viva
para o não-nada do vulcão
que antecede a erupção.

Inda que a poesia
se pretenda poção druida
em tacho celta
feita de asas de morcego
escamas de borboleta
unhas de dragão;
inda que recendesse
ou não, aos sabores de
Minas Gerais
ou ao agridoce da Cusine Thai...

Inda que se banhasse
no mesmo rio heraclitiano
ou na água de cheiro afrodesejante
até que lhe restasse
só os pendores azulados da morte...

Ah, um tal poema castiço
na certa estará sem prumo
subindo à ribatejo
pedindo ao circunstante
que se revelasse um desejo épico
para poder entoar a Marselhesa
em festa pagã, dionisíca
na arbitrariedade dos fatos
para alcançar, enfim
o fim do século das luzes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um Sopro Lenitivo


Ah, fria brisa eu vos saúdo
Que vens agora do sul varrendo
Funéreos pensamentos e a borda
Plana da pátria - e seus rochedos.
Sobre o pesar da vida, resfria
Aculea febre, terra, hirto medo.

Ah, o sereno tronitroar da aurora
Sem humores carmins da canícula
É o que se anseia caiba em parcelas
E seja a paz da tempestiva certeza
Restituindo todo o feliz regozijo
Mesmo que mesura, inda que baliza.

A morte decidida, horizonte de beleza
Sopra anteparos na mata, leve brisa.
Encontre-se na sonoridade a propria vida
Na fantasia musical pitagórica e airosa.
Sopra rubro no final da plana tarde
Pois quero morrer no fogo de quem goza.

Ricardo Sant’Anna Reis

SONETO EM SI


Soneto em si e só por ser soneto
Sona sonoridades soa harpejos
Refulge nos quartetos e tercetos
Fulgor de cores esplendor de beijos

Soneto em si é sinfonia leve
Iridescente escala em si bemol
Mínima, pausa, allegro em semibreve,
Legatos, staccatos e arrebol

Num instrumento lírico em que a si
La ba sibila e brilha em tons diversos
Vai o soneto versejando e di

Ver si fi can do em rimas o universo.
Entoa a idéia em verso fulgurante:
Cada soneto em si é di-amante!

Oldney Lopes ©

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A LUZ DE BUKOWVISKI


Poética I

A Thomaz Caetano Raymundo

Se quiserdes dizer da poesia
diga como Charles Bukowviski.
Fale o que for sobre a vida
que viver é o mistér da arte.

Diga o que se faz da noite,
que se encerra no pleno do dia.
O que preenche o vazio
que no peito te dilacera.

No fundo do quarto, do bar imundo
do intenso do fundo do fundo de tudo
d’onde tudo vem surgindo, emergindo
e a embriaguez te faz mudo e frio...

insuspeita, qual um fio
da mínima parte, a poesia processa
o dia como no grande Mar Aral,
- que ao princípio nasce de um rio.

E antes dele, a nascente primeva
e tênue; escassa de peixes.
Fale mesmo da vida nanica
e vil, e inda vária.
E, sem precisar, diga-o em poesia.

Ricardo Reis

domingo, 29 de novembro de 2009

CANTAR-TE ALGO EM FADO

A Laura Esteves

Cantar-te algo em fado, profundo
Um grito d´ave do empíreo, estridente
Como em sombras, em vôo solo reticente
Sem sentido, sem rumo no albor do mundo.

Perdida, pois, na mente, a poesia se faz alada
E me diz que sim, diz assim, diz que não
Ao se navegar pelos ares, em tão bela toada
Que se alevante poeira ocre do limo do chão.

Sea a essência da trovoada, mesmo, torto enfado
Cu´que voas magoado sobre carvalhos minhotos.
Encantado, queria além, cantar-te algo em fado...

Algo que no tempo, inda arda em querências
E que da remota dor, se estimando em dormências
Não me obrigue pois estar à calada. e mais nada.

Evoé!

Saiba que a sua visita e o seu comentario dão sentido a este espaço, que alem de divulgar poemas, quer conversar sobre a vida. Esteja em sua casa.

Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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