terça-feira, 1 de junho de 2010

A Languidez do Poeta




A Cláudia Gonçalves (Cacau)


Um poeta solitário caminha em devaneio.
Vai como triste no marulhar das gentes a reparar.
Dúbio, em perdidas palavras, agrava o pensar.
Estas não lhe trazem o remanso da brisa do mar a meio.

O que lhe falta? O que lhe sobra? Qual o seu momento?
Algo diz bem no fundo que é o tal enternecimento
Que antecipa a ventura de saber o que virá no vento:
- Desde o sul, o minuano, a lira e o sentimento.

Amalga-se, pois, agora a saudade dos olhos de claro mel
E de angelicais mãos que sequer se deram - e pressentidos
Os beijos de rubilita na aragem do outono, - jamais sentidos.

O poeta sonha a musa de apego assaz tão liquido
E lhe vem ao verso à marina brisa e um violino na distância.
À lassidão da lua, no peito o langor d’alma vem aplacar-lhe a ânsia.

Ricardo Sant'Anna Reis

domingo, 30 de maio de 2010

SONETO DAS FLORES MIUDAS

Se o absinto um mar de amarguras retornar
Ou a amarilis no artifício te puzer a navegar
Quede-se feliz o coração no auspício d’alecrim
Como se a fuscia de amor ardente fulgisse em mim.

Ah, se houver primavera de anis a te adornar
E mais um céu sem quase nuvem a branquear
Ah, se jamais real promessa se houver assim
Esteja pronta à inconstância do amor, enfim.

Se da zínia, sálvia ou do tomilho se dispuser
O manjericão ou a cicuta brava na pia
Restarão só os temperos para valer o dia.

Na vida, no tempo ou no amor, as flores
Sejam pois na maior dor ou na mais doce elegia
A dália, glicínia e a cravina, só de ser são poesia.

ALFOMBRA

Em ruas largas
nas praças, ao vento
onde mais houver em que se joguem
perdidas palavras.

Que se as escutem nos gritos
nas feiras livres, nas trovas
onde ao sol urdam-se
versos e sombras.

Em meio à arvores urbanas
como os fícus e os oitís
sob o refúgio das amendoeiras
vão as palavras tecendo alfombras.

Ricardo S. Reis

DOM DE VOAR

Vão-se três pássaros pairando em asas.
Debatem sem revez ou circunlóquio.
Grasnam forte, dedicado alarido.
Que ornitólogo lhes decifra tal colóquio?

Dominam céus em momentos; assim o fazem
Com a alegria inconsentida dos ingênuos
Que alçam vôos inda que internos em casas
Como os amores ao violão plangendo a lira.

Eis que repara na algaravia, desde o pasto, um muar
E com os olhos tristes, de soslaio os admira.
São pensamentos de liberdade a ruminar
Num idear que faz voar mesmo sem asas.

“Que pensas tu, oh burro, diga de pronto!
Revela! Ponha-te a zurrar! Quem te indaga
É um poeta da cidade tão medonho e incapaz
De idéias, um livre verso que seja a adejar”.

Dos píncaros os pássaros severos ao poeta retrucam
Com as asas voejando na imensidade do azul.
Falam: “Basta, oh vate ignaro, de dizer asneiras!
Pobre de quem precisar de idéias para voar!”

domingo, 9 de maio de 2010

CARROSSEL

Que sei eu do bom momento
ou sobre a arte ou a sorte
da vida em Sorrento o que sei arremesso no carrossel nada sei nem da sombra
sob a arvore no dossel. A poesia lunar não se pode tecer em alfombra
sem saber nada em prosa
sem saber nada da morte. O que relata a noite em lume
que vai alta no céu e espetacular
e eu nada sou nem estrume
nem brisa à se revelar nem maresia nas alterosas
nem na beira da estrada eu nada
nem o temor no mar sem cais.
Se de rosas me aterrassem
de medo eu não morria mais
me desfaria em ciúmes restasse somente um verso para sussurrar ao vento, como um gênio da floresta, o supino Ariel.
E eu te diria o meu amor
e te contaria o meu segredo lírico
em total inebrio
e tu displicentemente sorriria tão linda no carrossel.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Verdejar


Caber-nos-á levar como nos apetecer
A enfiada que em si é estar no mundo.
Inventar o reboliço desde túmulo-aquem
À superfície do lago ou no lodo, no fundo.

E que te baste estar vivo para flanar.
Pouco se dá o morrer ou o sobrevir.
Não há como a bruta espera renegar.
O dia novo é também dia de véspera.

Ame, porquanto maior o dia que o desengano.
E ainda que seja o mais doce desatino, ame.
Tudo é muito pouco, nada mais do que pano

A cobrir vergonhas de um viver de indigência
Seja o menino a quem lhe façam vãs vontades
Seja nos vislumbres vãos da douta ciência.

Ricardo Reis 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

MNÉMÊ(NTIRA)

A Marcus Vinícius Quiroga
O que é a tal da realidade?
Uma dádiva burilada, um repente
diante de dor avara e árida.
Um sentir-se vivo, fidedignamente.
O que é senão um sonho, derivação
o aguilhoar da besta-fera da vida
com a ponta fina do aguilhão
de um amor inventado.
Na consumação metafísica, o amor
se não for o maior amor do mundo
certo sempre será amor maior
que o amor do ser amado.
Fica a mentira
tísica, justa e cristalina
antropomórfica estrada plana
para o auto-engano
fenomenologia escassa da hipossuficiência
O viver é um sentido que se retira
como no circo de cavalinhos
a verdade atrelada à ausência
cavalga a toda brida sob o pano.

Ricardo Reis 2010

Evoé!

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Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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