sábado, 6 de novembro de 2010

PROFAN(AÇÃO) - um flanneur em Madureira

Equivaler-se no mercadão das almas
e sobreviver ao mormaço tardio
das intenções desistentes.

As ruas fervem de um fluxo inesgotável
de um ir e vir de esperanças, iniludível
as ruas fervem, inexcedíveis, incontornáveis.

Toda pedra sobre pedra começa a remoção do entulho.
No inferno é lixo por toda parte.

As grandes harpias da salvação
encimavam o telhado a casa desabada.
Agora abrem asas (sombras) sobre o subúrbio.

As imagens, artigos religiosos
luminárias baratas e enfeites chineses
rifles, batuques, cismas e crismas
alem das musas e a disposição natural ao paraíso.

Inda que intentes alcançar a clara promissão
de um veio de mel, de campos de aveia
estejas pronto a guerrear todas as guerras.
Todo corpo santo é sujeito à profanação.
Nada é mesmo tão humano
quanto o riso, quanto a arte
quanto a barbárie
reeditada por mil vezes.

Ricardo Reis 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

OLOR DE JASMIM


Ah, este mundo sem caminhos por ter
que sejam aos pés de pronto trilhar.
Vive-se em torbeliños, no afã de amar
de sonhar a luz no escuro, e por vezes, ser

a mesquinhez de negar o lume ao mundo
só para ver a chama do amor refulgesser.
Ah, musa errante; inquieta tu vais vivendo
que non se te apreende ao vôo de pleno verter.

És a dona casta do amar que eu tuve
que me é assim tirste, por inadvertido
este amor dolente de inescrutável porte.

Sofrida é esta mia dor que a ventura obriga
afeto profundo, quando, com calafrio na barriga
o jasmim de teu cabelo eu pude sentir, por sorte.


Arthur de Bastabales
Bento Gonçalves, RS, outubro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

PRECE I

A Carmem Moreno

Ah, Deus, ensinai-me
que plano é este de onde se vem
para onde se vai...
Este ir e vir, opróbrio fremente
em que o coração se perde
se arrisca, faz e refaz...
Que músculo é este, Deus
que não sossega
de sentir demais, e cedo
e que sente até mesmo a dor
tácita e ausente?
Ah, Deus, ensinai-me
a viver e a ser mais
do que o meu próprio medo!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PUMA NO SALTO

Frios como esquadros laminados de um parapeito.
incapazes para algo, mal-formados sobejos.
Se formigas vão no chão fazendo fila
em formação, à mente, se vão os desejos.

Nos meus sonhos diários de absolvição
um gato preto salta e pula, recorrente.
Vira-se de puma, enlutado, em desespero
em uma cabriola filosófica e obsoleta.

Como são frias as tintas na paleta
se são ardentes nas cores
de Van Gohg
quando retratam um campo
de girassóis ensolarados?

TORNASSOL

O amor como o ondular
da procura ausente.
O tornassol que em teu rosto
tornou-se, fixado
num olhar terno, alvo.
Ah, amor que se afogou
em volumosa confiança
desencarnada de sangue
e de eflúvios.
Ah, amor inventado
que revive eternamente
em sua dor.
Um vento impreciso, um relance
e o rosto já se volta a ilusão
e o horizonte já se espraia na mente
em langues águas
como indômita alma.
Ou não, calma. Nada.
Só um sonho estrondoso
na chegada ao portal do Hades
onde só encontrarás, em silêncio
o vetusto senhor do tridente.

domingo, 5 de setembro de 2010

A PANTERA

Rainer Maria Rilke

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.

domingo, 15 de agosto de 2010

CARA DE CÃO

Após noite ébria de deleite
pus-me a caminhar no calçadão
da Praia de Copacabana.
O horizonte por enfeite
se reparte por igual; as montanhas
inteiras cobertas de mata atlântica
perenes, e o céu, de janeiro a janeiro.
Fixei-me na intima cor natural
da paisagem
sob a luz intensa da manhã.
Retiro dos que por mim
são passantes
a alegria do carnaval.
Há a esperança infinita
de que um dia tudo melhora.
Ainda agora se refletiu no olho côncavo
da andorinha, que mora na reentrância
da pedra do morro Cara de Cão
o claro regozijo de ser ave
nos nítidos céus do Rio de Janeiro.

Evoé!

Saiba que a sua visita e o seu comentario dão sentido a este espaço, que alem de divulgar poemas, quer conversar sobre a vida. Esteja em sua casa.

Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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