sábado, 13 de novembro de 2010

MAIS POESIA GALEGA

Santa Companha

Um estranho guerreiro
guiava a procissão...
Todos pareciam sabê-lo

Inda havia o ladrar de cãs
o soar de trompetes
e as luces deambulantes
das velas acesas, nos bosques

Desde então
que os meus incêndios
são nocturnos
e não sob o sol
nos vergeis

Tenho gaivotas...
o que não os tenho
são os céus...

Arthur de Bastabales e Concha Rousia

CONHEÇAM UM GRANDE POETA BRASILEGO

PAISAGEM DEPOIS DA CHUVA

Árvores antigas
debruçadas no lago
espalham sombras ruídas.

Um peregrino sentado
contempla a brisa suave
afagar o campo molhado.

Por entre árvores, uma ave
esgrima com a brisa: amiga.
O peregrino, à sombra, nada sabe.

Ribeiro Halves

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MALABARES

Tantas vezes o viste na chuva, assim lavado
que o seu espetáculo improvavel de sobrevida
já não mais te surpreendia.
Tantas vezes o pequeno malabarista negro das esquinas
(equilibrando limões em mãos ageis e pequeninas)
em quem o teu pousar inevitavel de olhos
obrigou-te a lembrar das humanas desditas
que impõe às crianças uma tal vida.
E foram tantas neste mesmo caminho diário
que da sua obscura presença e miséria
como a de um lampejo de frio a mais
como a de um fortuito escarro
como a de uma estereotipia de rosto crispado
nem sequer te das mais contas
e, ato contínuo
cerras sem dó a sentença vidro
da janela de teu carro.

SONETO DAS FLORES MIUDAS

Ab-sinto um mar de amargura me tomar
E vejo a amarílis em artifício à navegar.
Queda-me o coração aos auspícios d’alecrim
Como a fuscia do amor ardente fulge em mim.

Ah, se a primavera de anís vai se adornar
Ante o céu sem quase nuvem a branquear
E se jamais real promessa houver assim
Esteja pronta a inconstância do amor, por fim.

Zínia, sálvia e tomilho, o que dispor
Seja o manjericão ou a cicuta brava na pia
Restam os temperos para fazer valer o dia.

Seja na vida, seja no tempo ou no amor
Tragam-se flores para a maior dor ou elegia
Pois dália, glicínia ou cravina, só de ser são poesia.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

FALÊNCIA MUTIPLA

O mundo em putrefação.
A bruma da nascente conspurcada
já te envolve na contaminação.

O coração apaixonado
cercado pela falência múltipla
pela Serra dos Órgãos
pelo barulho dos motores de motos
que ensurdecem aos ouvidos.

A ética na política é um corpo insepulto
esquecido, ao olvido, que se empalha
ou se recolhe à museus.

Que Deus do céu nos guarde
e nos valha
que até a guianba no morro
hoje em dia é só palha.
E sem me livrar das impurezas
tem este meu rim que já falha.

sábado, 6 de novembro de 2010

PROFAN(AÇÃO) - um flanneur em Madureira

Equivaler-se no mercadão das almas
e sobreviver ao mormaço tardio
das intenções desistentes.

As ruas fervem de um fluxo inesgotável
de um ir e vir de esperanças, iniludível
as ruas fervem, inexcedíveis, incontornáveis.

Toda pedra sobre pedra começa a remoção do entulho.
No inferno é lixo por toda parte.

As grandes harpias da salvação
encimavam o telhado a casa desabada.
Agora abrem asas (sombras) sobre o subúrbio.

As imagens, artigos religiosos
luminárias baratas e enfeites chineses
rifles, batuques, cismas e crismas
alem das musas e a disposição natural ao paraíso.

Inda que intentes alcançar a clara promissão
de um veio de mel, de campos de aveia
estejas pronto a guerrear todas as guerras.
Todo corpo santo é sujeito à profanação.
Nada é mesmo tão humano
quanto o riso, quanto a arte
quanto a barbárie
reeditada por mil vezes.

Ricardo Reis 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

OLOR DE JASMIM


Ah, este mundo sem caminhos por ter
que sejam aos pés de pronto trilhar.
Vive-se em torbeliños, no afã de amar
de sonhar a luz no escuro, e por vezes, ser

a mesquinhez de negar o lume ao mundo
só para ver a chama do amor refulgesser.
Ah, musa errante; inquieta tu vais vivendo
que non se te apreende ao vôo de pleno verter.

És a dona casta do amar que eu tuve
que me é assim tirste, por inadvertido
este amor dolente de inescrutável porte.

Sofrida é esta mia dor que a ventura obriga
afeto profundo, quando, com calafrio na barriga
o jasmim de teu cabelo eu pude sentir, por sorte.


Arthur de Bastabales
Bento Gonçalves, RS, outubro de 2010

Evoé!

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Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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