Quando uma mulher se solta
e aos seus cabelos longos
algo acontece de se ver
de se ver, não de se tocar.
É que o mundo se acende no ato
e, luminescentemente clareia
aplacando à qualquer cizânia
quando a Penélope se penteia.
Dá-nos a vida, um fugaz momento
no vislumbrar da mulher
aos aprontos para o adormecer.
Não é o corpo, receptor de todo engano
nem a noite, suave fim da chegança
mas sim, o gesto da mulher ao toucador
um dar de mãos displicente
lânguido e lancetador
deslizando seus dedos sobre as melenas.
Este é um sublime alumbramento
que conduz à idéia de perfeição
à qual costumamos olvidar.
sábado, 27 de junho de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Conversa por sobre o oceano que nos separa e une

MEU IRMÃO BRASILEIRO
Língua da minha língua
braços dos meus abraços que vão e vem do mesmo mar
que nós une, que nos continua gota a gota
uns dentro dos outros
como o bruar das suas ondas
ondas dentro das ondas
até o confim dos tempos
Eco do meu falar a língua mãe
no seu berço hoje amordaçada
Meu irmão brasileiro...
Levo na boca um cantar que há tempos fica calado.
ao peito acode apenas pranto
Levo na fronte uma estrela cuja luz se quer ir apagando
mesmo ela não querendo...
Meu irmão brasileiro...
Deixa-me que te conte...
se tu me miras eu me vejo
se tu me falas eu me ouço
e mesmo que o mundo
me quiser negar a voz,
eu falarei
se tu me ouves eu falarei...
e talvez assim se me cure esta incurável saudade
Meu irmão brasileiro...
Concha Rousia, Galiza
MINHA POETA GALEGA
Pois que te deixem falar
a língua matter, qual palmae
ou carvalho a fertilizar os tempos
em seu entorno.
Os teus falares têm ainda a dicção
do latino verbo fundador do pensamento
e de nossa forma de amar ao outro
e a natureza.
Que te deixem azular este céu
com as tuas palavras castiças
que me levam neste momento
aos bosques profundos
da profunda Galiza.
Palavras, pois, que nos unem
sobre este mar de tonalidade
verde profundo.
Deixem-te às palavras
que perduram, ao limbo
das exigências vãs da política
do vernáculo e da vaidade
para que tu as resgate
e que voltem ao alumbramento
como seres sagrados da memória.
Com os teus pares, deite bela
ao ar tua lira quinhentista.
Que te deixem ao direito de existir
irmã galega, em tua língua, tua história
tua identidade, tua pátria primal
que também é a do meu desejo
o desejo de essência que me avia.
Se te vês cansada, lute ainda mais
Se te desanimas, não recues
do que te cabe.
Os destinos validos
são os que se projetam sobre o tempo
e ascendem, sobre as noites, os claros dias.
Aquelas que promoves
são as justas refregas
em que não cabem áis
e que tem o matiz que sabe
de tua santa indignação.
Tua idéia inarredável
ilumina homens e mulheres
de idéias, pelo mundo afora
como o pequeno
Farol de Alexandria
rasgando o véu da noite.
Ah, interstício da vida que vai
em que ao sopro vaporoso
de uma Canção de Amigo
tu me embalas no soar
de teu banjo medieval.
Pois que não te possam
calar jamais.
Ricardo Sant’Anna Reis, Brasil
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Actas para palavras proibidas
poeta sou como o rapace de palavras e as roubo assaz quando as pego cruzando pélagos em asas lépidas de melra levando ao bico as mensagens de salvação da alma e quando não são as melras são as enguias com sua escorrencia original espargimentos elétricos e ciclonicos da nivia linfa imponderável e das linhagens universais quero as palavras de essência esquecidas nos léxicos palavras que façam sentido ou não mas que eu as pilhe enquanto permeie prados viçosos e lavras e nas covas as letras mortas por mãos diáfanas plantadas no chão mesmo no assombro serão as tais palavras como plasmas fertilizantes como placentas confeccionarias de elegância sutil vibrátil e circunflexa os meus poemas são velhos como eu mesmo sou velho no mirar eu surpreendo (as palavras velhas) sobrevivendo nas sombras da caridade alheia e ao abrigo das emoções nos dizeres do povo ou enquanto palavras múmias estrambóticas sem carne sem rosto de sagas antigas como a porosidade de ossos de argonauta eu as uso no assento e na pausa reconhecível de meus versos caducos ah, Marinetti e esta velocidade progressista que me atropela se me cortam as palavras fazem-me impassível eunuco ah, esta cidade-limite em flor os meus versos, como foi dito pelos que supostos lhes sabem não são poética excedidos e anacrônicos que são desconexos de um tempo presente ainda roubo palavras de uns poetas barrocos d’alemar que as tem por perto mas que a vaidade não se lhes permitem que se dêem conta de que o poema é sempre maior do que o poeta só me pugno por um tempo que me seja válido que não permaneça estático que só se o pressentissem na evanescencia d’alma ou em um murmúrio infiel de esquálido e expurgado afeto ah, as palavras como as desejo! sobrevoam benditas ou malditas como pássaros soluços na solidão da noite ao balouçar de um tisnado pessegueiro de jardim palavras internas na brisa da madrugada ah, ai de mim, minha fada! como se me faz triste saber tantas formas abandonadas no lixo da história como flores que são murchas restos de palavras nunca ditas que jamais se exercerão renovadas
Ricardo S. Reis & Claudia Gonçalves
Ricardo S. Reis & Claudia Gonçalves
domingo, 17 de maio de 2009
A INTEIREZA DO SER

Supondo-me inteiro
Inteirastes-te de mim
Eu que me havia parvo
Canhestro e cobarde
Sombra perdida de exilado
Inteirastes-te de mim
Eu que me havia parvo
Canhestro e cobarde
Sombra perdida de exilado
Serafim.
Tentastes, então
Tentastes, então
A leitura ilesa
Dos signos
Dos signos
Por fim
No transluzir
No transluzir
Do éter de minh’alma.
Qual nada.
Eu era pura opacidade
Nenhuma inteireza.
Delirante
Nenhuma inteireza.
Delirante
Acostumei-me
Ao sentido de ser metade.
Quisera eu, meu amor
Ao sentido de ser metade.
Quisera eu, meu amor
Ser possuído
E por inteiro
Por uma infinita verdade.
E por inteiro
Por uma infinita verdade.
A DUALIDADE DA VIDA

A vida, meus senhores
Não é assim tão leve
Não se a vive impune.
Não é assim tão leve
Não se a vive impune.
A vida, senhores
É o cume, acúmulo
Afiado gume do amar
Semibreve instante
Num circo de horrores.
Ah, mas não é que seja sempre.
A vida mesmo não se lhe pesa
Se do viver se quer apenas
O devanear.
E se a flama é toda
Num momento
De não sobrar
De não sobrar
Para fiar penhores.
Fez-se dual a parcela de amor
Que coube em uma vida
Ora opaca ou transparente.
Se em uma hora
Se quer morrer de dor
Noutra, já nada mais se sente.
Noutra, já nada mais se sente.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
IRA

Por vezes me toma tal calor
Que de grande
Que de grande
Me arde por dentro
Quase que o fogo do inferno
Queimando-me; e eu não me agüento.
Às vezes se introduz neste ardor
Em meu intimo, o veneno melífluo
E viscoso a que chamam de Amor.
Ah, vicio nefasto qual cocaína.
Ah, este sentir que queima de fulgor e medo.
Quase que o fogo do inferno
Queimando-me; e eu não me agüento.
Às vezes se introduz neste ardor
Em meu intimo, o veneno melífluo
E viscoso a que chamam de Amor.
Ah, vicio nefasto qual cocaína.
Ah, este sentir que queima de fulgor e medo.
Eterna sina, divina e perene pira.
Ah, este sentir que calcina a alma inefanda
A obscuridade do Amor, tornado em Ira.
Ah, este sentir que calcina a alma inefanda
A obscuridade do Amor, tornado em Ira.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
O TREM DE FERRO

O trem que, menino
do Rio de Janeiro me levava
rompia ventos com a impaciência
rompia ventos com a impaciência
que ao fim da jornada antecipava.
Café-com-pão, piiuuiiiiiiii...
Apenas eu ia absorto e inteiro
e o maquinista
Café-com-pão, piiuuiiiiiiii...
Apenas eu ia absorto e inteiro
e o maquinista
na curva, ia apitando.
Eu só imaginava, pois que não existia
(não se via) nenhum maquinista
nem curva.
Havia somente o dia se dissolvendo ligeiro.
Olhava pela janela e engolia com o vento
o momento passageiro.
Não dava contas
na viagem
dos contornos da serra mineira
(que agora recupero na lembrança)
disperso que estava na sacolejante
monotonia da paisagem.
Súbito, como no sonho d’Alice
o meu olhar se fixava na casa pobre
de taipa, que se via
bem no meio da planície verde.
A casa, já entrada no escuro da noite
pela lenha que ardia no fogão
em magia, se alumiava.
Tinha um olhar conspícuo
A casa, já entrada no escuro da noite
pela lenha que ardia no fogão
em magia, se alumiava.
Tinha um olhar conspícuo
(a casa) um olhar de eternidade
e vigiava o trem de ferro
em que também viajavam
em que também viajavam
as minhas conjecturas
de criança
de criança
inócuas, inócuas.
E o trem, já então na lonjura
com a pressa da chegada
ainda, em cada curva
E o trem, já então na lonjura
com a pressa da chegada
ainda, em cada curva
parecia que apitava.
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Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.
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