quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ANUNCIO

Vendo Rins em bom estado
Garrafa pra colecionador
Pimenta curtida
Capino terreno
Faço frete
Alugo obras de artes para enfeitar a sua casa
Troco pequenas coisas
Canetas pregos parafusos
Botões cartões
Atraso o relógio
Lubrifico a porta
Tiro merda do cachorro
Cuido do seu jardim
Por alguns reais faço um verso pra você
Invento receitas
E de quebra te dou um soco no olho
Um tapa no pé do ouvido
e ainda engraxo teus sapatos.

Welington de Sousa / RJ
O SEGUNDO LIVRO

para Ricardo Sant’Anna Reis


Em setembro tomei conhecimento do livro. Sei que se trata de um volume de versos. Sei que 119 poemas preenchem suas páginas e no meio desses poemas existe um para mim. Tencionei comprá-lo. O amigo-escritor me prometeu várias vezes o mesmo exemplar que nunca chegou. A timidez impedira a postagem? Teria afundado em auto-mar ou pilhado por piratas? Quais mãos e olhos agora compulsam, lêem e se maravilham? Seriam mais dignos? Nunca saberei. Por algumas noites sonhei com o livro e seu autor. Sonhei suas páginas cheias de beleza e erudição. Sonhei o mundo que outro sonhara, sonhei suas palavras, seus pontos de vista. Sonhei sua melodia, sua eufonia, página a página. Depois sonhei com o autor e seu livro. Sonhei sua guerra com as palavras e sua trégua. Sonhei suas descobertas e suas desilusões, suas tentativas e derrotas. Sonhei suas noites em claro. Sonhei sua persistência. Sonhei, por fim, o livro acabado. Depois descobri que o volume não se acabava, que já era outro: renovável, randômico. Que nele encerravam 119 poemas incertos. Que nele habitavam 119 poemas inacabáveis. Já não desejo a primeira obra (para mim, menos real). Esta, sem a negar, à outra superou.

Obrigado, amigo, pelo presente.

Texto de Fabiano Silva, poeta de Belem do Pará/PA
BRAMIDO EXALTADO


Ó, Ricardo!
Domador de animais invertebrados
taxidermista de criaturas extintas
perdidas na ignorância e lassidão.

Ó, Ricardo!
Teu rio verbal, largo e intempestivo;
imitatório de meu rio natal, o Guajará,
rio de águas profundas e escuras.

Ó, Ricardo!
Poeta abissal, para te consagrar
vesti-me da malha da metáfora:
rompe com teu verso o Tempo

e outros deuses.

Fabiano Silva, poeta de Belem do Pará/PA

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

SER MÃE

Evoca as partes expandidas
lançadas ao mundo, ao engano.
No risco de ser, atua, revolta-se.
Ilha perdida, no filho se ausenta.

A marca de estar, assim, tão só.
Muda, inócua, flutua o olhar
pão, denso ar, nada.
A fala só repete a fala.

Há uma sede de calmaria.
Um fel há, que suplanta a ira.
A cria lhe vem como simbolo
da eternidade, amor e morte.

Retorna um vento ocluso.
E a mãe lambe a ácida cria.
O gen intempestivo e cruel
busca o existir
na vida que já se retira.

ERRÂNCIA

Somos o nada
E também somos
O que pudemos
Ser
Por força
De sentirmos
A claridade
À cada
Amanhecer

Se já é tarde
Na vida
Que o crepúsculo
Sorva o que sobrevier
Inda que triste
Sob revolta
De tudo que não se foi
E mesmo sem
O enternecer

Pouco se aprende
Com a vida
Pois pouco há
Para se aprender

Seguimos, nós
Tortos, no rumo
De um mundo
Que não se avia
Onde o erro
É sempre algo
De mui pouca valia.

Ode à Cecília Meirelles



Ah, que estava eu poeticamente morto,
e o teu frágil encanto, mudo,
desde os Açores de tu avuela,
que letra por letra te ditou...
O teu canto à minha alma tocou.

Ah, Cecília leve de quase nada
desejo de quase tudo.
Um canto místico, um céu maior
assim marcado de estrelas
refletiu-se no mar, o cristal
ressoou em palavras belas
um soneto do amor total
que a pena sentida riscou.

Ah, poeta, o teu poema
esta emoção e este rigor
do absoluto, este afã
da poética pura
da vereda que vazou
para inundar-me o viver.

E a vida precária se augurou
em versos
para me ver renascer.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A LÍRICA

a forma nua
conformação poética
a forma mais pura
academica
um tema lírico
para a contemporanea
emoção

algo assim viagem à lua
e não adormecer na aurora

de resto
romper o simbolico
na madrugada à velar
na expiação da noite
que a tarde veio anunciar

em miséria
sonolento resto
retrato do momento
as mãos lividas
contaminadas
de modelar culpa e gesto

vai a forma mais nua
poética anti-arquitetura
poesia de lassidão
incerta lacuna
desejo de morte

poética crua
navio exótico
se afasta do porto

sozinha no mar
a alma flutua

o que fazer da vida
se ao fazer nada é certo
nada é lírico
sob um pálio pobre
inda que belo o deserto

Evoé!

Saiba que a sua visita e o seu comentario dão sentido a este espaço, que alem de divulgar poemas, quer conversar sobre a vida. Esteja em sua casa.

Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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