Após noite ébria de deleite
pus-me a caminhar no calçadão
da Praia de Copacabana.
O horizonte por enfeite
se reparte por igual; as montanhas
inteiras cobertas de mata atlântica
perenes, e o céu, de janeiro a janeiro.
Fixei-me na intima cor natural
da paisagem
sob a luz intensa da manhã.
Retiro dos que por mim
são passantes
a alegria do carnaval.
Há a esperança infinita
de que um dia tudo melhora.
Ainda agora se refletiu no olho côncavo
da andorinha, que mora na reentrância
da pedra do morro Cara de Cão
o claro regozijo de ser ave
nos nítidos céus do Rio de Janeiro.
domingo, 15 de agosto de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
DRUMMOND NO TEMPO INTIMO
Que nada restou de ti, poeta e do tempo enfunado?
Que tudo? O quê da bem querência?
Teus pares, Dolores,
perduram no gesto
nas guerras a revisitar
nas alcovas consentidas
na foto na parede, Itabira sacrificada.
No batente da janela corroída
a maresia por remanso.
O que restou do Rio de 40?
Restou a tua mão patética em recolhimento
os óculos ovais que denunciam o cansaço
e o sentimento ruinoso do mundo.
E como saber se não foi sonho se não foi sanha
a poética refletida no olhar da pomba
verdadeira, perdida no passeio Público?
E se ao toque do bumbo da praça em frente
ao Cinema Olinda, o homem sisudo e tímido, enamorado
da dama antiga, ainda se assombre com o estribilho do bonde.
Suspeito que roubas discreto do Carlitos, a eterna cena.
Repara. Embora falte o sentido que te parecia intimo
e necessário, habita a alma algo da canção amiga
das memoraveis sentenças, dos versos tecidos na sombra.
E é esta alma que já se cogita
ser assim mais do que flama,
- um poema.
Que tudo? O quê da bem querência?
Teus pares, Dolores,
haveres, teus males da vida e amores.
nas guerras a revisitar
nas alcovas consentidas
na foto na parede, Itabira sacrificada.
No batente da janela corroída
a maresia por remanso.
O que restou do Rio de 40?
Restou a tua mão patética em recolhimento
os óculos ovais que denunciam o cansaço
e o sentimento ruinoso do mundo.
E como saber se não foi sonho se não foi sanha
a poética refletida no olhar da pomba
verdadeira, perdida no passeio Público?
E se ao toque do bumbo da praça em frente
ao Cinema Olinda, o homem sisudo e tímido, enamorado
da dama antiga, ainda se assombre com o estribilho do bonde.
Suspeito que roubas discreto do Carlitos, a eterna cena.
Repara. Embora falte o sentido que te parecia intimo
e necessário, habita a alma algo da canção amiga
das memoraveis sentenças, dos versos tecidos na sombra.
E é esta alma que já se cogita
ser assim mais do que flama,
- um poema.
domingo, 25 de julho de 2010
LANGUIDEZ
A Cláudia Gonçalves
O poeta solitário caminhava em devaneio.
Ia triste no marulhar das gentes a reparar.
Dúbio, perdidas palavras, agravavam o pensar
E não traziam o remanso da brisa do mar a meio.
O que lhe faltava? O que lhe sobrava? Qual seu momento?
Algo bem no fundo lhe dizia que o tal enternecimento
Anteciparia a ventura de saber que, desde o sul
Viria no vento minuano, a lira e o sentimento.
Amalgava-se no peito a saudade de olhos de claro mel
E de angelicais mãos que sequer se deram - e pressentidos
Havia os beijos de rubilita, no outono, - jamais sentidos.
E o poeta sonhava a musa de apego assaz tão liquido
Que lhe vinha no verso a marina brisa e um violino na distância.
A lassidão da lua e o langor d’alma a aplacar-lhe a ânsia.
O poeta solitário caminhava em devaneio.
Ia triste no marulhar das gentes a reparar.
Dúbio, perdidas palavras, agravavam o pensar
E não traziam o remanso da brisa do mar a meio.
O que lhe faltava? O que lhe sobrava? Qual seu momento?
Algo bem no fundo lhe dizia que o tal enternecimento
Anteciparia a ventura de saber que, desde o sul
Viria no vento minuano, a lira e o sentimento.
Amalgava-se no peito a saudade de olhos de claro mel
E de angelicais mãos que sequer se deram - e pressentidos
Havia os beijos de rubilita, no outono, - jamais sentidos.
E o poeta sonhava a musa de apego assaz tão liquido
Que lhe vinha no verso a marina brisa e um violino na distância.
A lassidão da lua e o langor d’alma a aplacar-lhe a ânsia.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
PARA PENSAR A EXISTÊNCIA
Quando consideramos como é vasto e próximo de nós o problema da existência, esta existência ambígua, perturbada, fugidia, semelhante a um sonho – um problema tão grande e tão próximo, que encobre e sobrepõe todos os outros problemas e finalidades logo que tomamos consciência dele – e quando consideramos que todos os homens, com exceção de alguns poucos, não são claramente conscientes desse problema, nem parecem perceber sua existência, mas se preocupam antes com qualquer outro assunto e vivem apenas no dia de hoje sem levar em conta a duração não muito longa de seu futuro pessoal, seja contentando-se em relação a ele com algum sistema de metafísica popular; digo, quando considerarmos tudo isso, podemos chegar à conclusão de que o homem só pode ser chamado de ser pensante num sentido muito amplo. Nesse caso, não nos surpreenderá nenhum gesto de irreflexão ou tolice, pois saberemos que o horizonte intelectual do homem normal pode até ultrapassar o do animal – cuja existência, sem nenhuma consciência do futuro e do passado, é inteiramente presente -, mas não esta tão distante deste quanto se supõe.
Arthur Schopenhauer
Arthur Schopenhauer
domingo, 11 de julho de 2010
POEMETO SOBRE O AMOR
O amor quando acontece
pode ter a genética
de um tornado
arrasador e insólito.
Mas o há aquele que amarelece
no sorriso tímido do rapaz
e o que no esperar da moça
vai empoeirar-se.
O que haverá de ser
de um acontecimento
mesmo acentuado e forte
com um tal sentir de gosto...
e que inda por ser assim
é de tal fragilidade
que nasce musgueando
pelos cantos nas ruas
na cidade nos becos da sede
na relva triste das tundras
no charco raso das várzeas
e que toma de tudo conta
como hera de parede?
É preciso proteger
um tal sentimento
do impiedoso jardineiro
estóico senhor do condado
que mora num rancho no fundo
do bosque mais sombrio do mundo
que vem de quando em vêz a lume
aparar as ramagens novas
de qualquer coração descuidado.
pode ter a genética
de um tornado
arrasador e insólito.
Mas o há aquele que amarelece
no sorriso tímido do rapaz
e o que no esperar da moça
vai empoeirar-se.
O que haverá de ser
de um acontecimento
mesmo acentuado e forte
com um tal sentir de gosto...
e que inda por ser assim
é de tal fragilidade
que nasce musgueando
pelos cantos nas ruas
na cidade nos becos da sede
na relva triste das tundras
no charco raso das várzeas
e que toma de tudo conta
como hera de parede?
É preciso proteger
um tal sentimento
do impiedoso jardineiro
estóico senhor do condado
que mora num rancho no fundo
do bosque mais sombrio do mundo
que vem de quando em vêz a lume
aparar as ramagens novas
de qualquer coração descuidado.
AMOR AO PÉ DA LETRA
O poema de pé quebrado
versava sobre o amor
só vivia tropeçando
claudicante em seu ardor.
O poema guardara no peito
imagens daquela tarde
relvas casas e o céu
azulzinho da serena cidade.
Na brisa quente o poema
por sua paixão eterna
indo com rima ou sem rima
flanava ao rés-da-terra.
Por amor sublimava
os erros e faltas mortais
dado que voava sem asas
e que andava sem ter pés.
De amor pouco compreendia
palavras, dispêndio, o que mais?
tentava o poema expressar
uma noite virada em dia.
Assim o poema sem chão
qu'inda não entendia nada
levou tudo ao pé da letra
e continuou na estrada.
versava sobre o amor
só vivia tropeçando
claudicante em seu ardor.
O poema guardara no peito
imagens daquela tarde
relvas casas e o céu
azulzinho da serena cidade.
Na brisa quente o poema
por sua paixão eterna
indo com rima ou sem rima
flanava ao rés-da-terra.
Por amor sublimava
os erros e faltas mortais
dado que voava sem asas
e que andava sem ter pés.
De amor pouco compreendia
palavras, dispêndio, o que mais?
tentava o poema expressar
uma noite virada em dia.
Assim o poema sem chão
qu'inda não entendia nada
levou tudo ao pé da letra
e continuou na estrada.
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Evoé!
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Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.
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