segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um Poema à Rosália de Castro


Passa, porque me passa a nuvem
Que já foi suave e foi sombra
Sobre o chão de Bastavales.

Hoje polo céu azul do Brasil
Pega-me de amor galego
E traz-me a paz polos ares
Em rolos de fume.

Ah, Bastavales, Bastavales!
Inda oiço nas campas da esperança
A Rosa que te nomeai
Pisando em tuas folhas verdes
Carpindo tuas letras olvidadas.

Ah, nube ridente, medieva campesina
Que me passa, em teu bruar
Polo meu desterro, desde tão longe
Da Nai e Nação Galega.

Dá-me tuas nuvens como chalés
Dunha fina estampa roxa
Como um fim de tarde
Sem nenhum peso na fronte
A nos turbar.

Assim, irmão, a ti por esta nube leve
Querer-te também bem-vindo a vida
Sem tempo, sem um fim e sem começo
Como no horizonte da Fisterra
Em que todo o mal em unha oração se evita
Antes de lançar-se ao mar
O como num encanto em um caldeiro druida
Na clareira do bosque frondoso e negro de Vigo
Como no mistério oclusivas
Que em todo que é bem se permita.

Artur de Bastavales

Vigo - GALIZA, 2009 10 20

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O meu poema PALPITAÇÃO mereceu o comentário do grande poeta da Geração de 45, Gilberto Mendonça Teles.


Palpitação

Se você ousou, o que importa?
O tempo é ontem
quando tudo valeu a pena.

Se você chorou, não cuide mais.
O sentido do pranto já está
incurso no corpo do poema.

Se temeu, então que seja.
O alarme do gato só se elucida
durante o salto.

Nada é tão puro
e nem tão indiferente
para um coração doído.

Mesmo a ave que voa livre
traz no peito (e sofre ainda)
aquele gato excluído.


Ricardo Sant'Anna Reis



(...) Nota-se inicialmente que o poema é formado de cinco tercetos, mas com estrofes livres, cada uma com a sua significação. A única coisa que as liga é a repetição anafórica da conjunção “Se” que aparece nas três primeiras estrofes, num tempo passado, aparentemente passado, mas que se torna presente na enunciação do poema.
O sujeito lírico do poema está falando num presente invisível, só perceptível na oposição tempo da enunciação do poema versus tempo do enunciado no poema.

Há um sentimento de frustração na primeira estrofe, como se a ousadia (o ato de ousar) fosse coisa do passado. Não só a ação do verbo se dá no passado, reforçada por um “ontem”, como se nada no presente valesse a pena e a felicidade estivesse no passado. No entanto é no presente que se avalia o passado.

No segundo terceto passa-se do ato de “ousar” para o de “chorar”, mas com o sujeito lírico informando que “o pranto já / está incurso no corpo do poema”. Ou seja, começa-se a ter consciência de que o real empírico passa a ser o “real” do poema.

A terceira repetição do processo de estruturação do poema começa com “Se temeu”, quando o sujeito do poema assume diretamente a ação de temer e a aceita, introduzindo uma imagem ousada, quase surrealista: o pulo de um gato metafísico.

É por causa dessa imagem que o processo de repetição anafórica se detém e o sujeito do poema assume toda ação no presente, mesmo deixando entender que seu coração se abalou com a ousadia e o temor da imagem do gato saltando. Tanto que a última estrofe o “vôo do gato” cede lugar ao “vôo livre” de uma ave que não consegue apagar a lembrança do “salto” que alarmou o coração do sujeito lírico que é, afinal o próprio poeta. Não é à-toa que as duas estrofes finais se ligam por uma rima final que introduz um ritmo novo no poema (...)


Gilberto Mendonça Teles, Rio, 16.12.2009.


'Agradeço comovido, mestre e poeta maior, a sua generosa e bela exegese de meu poema" - Ricardo S. Reis

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Janio de Freitas

"O golpe inequívoco via telex", copyright Folha de S. Paulo, 31/03/04

"Em torno do meio-dia, era cedo ainda para o encontro marcado com o economista Gilberto Paim, um dos tantos egressos do Partido Comunista que, à época, ainda se identificavam com várias das posições nacionalistas e, digamos, progressistas. Nem havia muito o que escolher, era um lado ou outro, por maiores que fossem as ressalvas. Resolvi fazer hora conversando com Raimundo Wanderley Reis, era só entrar no Banco Nacional, ali mesmo na esquina de Ouvidor com Rio Branco, e subir ao quarto andar. Os amigos gostavam de saber as novidades de minha ocupação naqueles meses -estava montando um novo jornal. Encontrei Raimundo com ares mais confidentes do que nunca: me mostrou a cópia de uma mensagem que o encarregado do telex lhe contrabandeara, antes de mandá-la ao destinatário na direção do banco.

À 1h, Paim e eu entrávamos no Conselho de Segurança Nacional, que era a instância central no sentido então muito amplo de segurança e de nacional. Desde algum tempo, me interessara por estudar os processos de comunicação subliminar, ou seja, de apreensão sem plena consciência da própria apreensão, e, bem a propósito, a meio daqueles dias tumultuosos me soara um alarme. Espanhol que por anos viveu no Brasil e fizera algumas experiências de subliminar nos estúdios da (extinta) TV Rio, meu amigo Carlos Pedregal me procurara excitado por um fato estranho: fora contatado por um certo Enaldo Cravo Peixoto, que se mostrava interessado no assunto da subliminar. Mais do que integrante do governo lacerdista da Guanabara, Enaldo era participante do círculo extremado de Carlos Lacerda. Falei a algumas pessoas de quanto isso me deixou preocupado, e Gilberto Paim contatou um amigo do Conselho ao qual sugeria que eu alertasse. Era o caso, sem dúvida.

Fui sucinto e cauteloso. E não precisava ser mais do que isso: o coronel me ouvia com o misto de suficiência e indiferença de quem, autoridade, não tem a menor idéia do que está ouvindo, sequer parecia conhecer a palavra subliminar. Melhor assim, porque minha preocupação já era outra.

- E a rebelião em Minas, em que pé está, coronel?

- Rebelião?

- É. Rebelião militar.

Tinha certeza de estar tudo calmo, mas fez um telefonema.

- Falei com a Segunda Seção do Primeiro Exército [A Segunda Seção é a de informações]. Não há nada. Está tudo calmo.

- É melhor falar com outros também, coronel, porque há, sim. As tropas do Exército rebelaram-se em Belo Horizonte hoje de manhã e saíram dos quartéis.

Não imaginaria, jamais, ser necessário informar a principal instância da segurança nacional, o cerne do tão falado ‘dispositivo militar’ do Jango, de que o país estava sendo sublevado. Mas a caminho do elevador já levava todo o dramático sentido do que me dissera dias antes, melancólico e tenso, o coronel Donato Machado, talvez o mais lúcido militar dos que me tornei amigo: ‘Não há dispositivo militar nenhum, o Assis Brasil não montou dispositivo coisa nenhuma. A direita vai dar o golpe. E ganha’ [Assis Brasil, general chefe do gabinete militar da Presidência, era dado como articulador de um dispositivo imbatível, que levava o seu nome e só esperava ‘a direita pôr a cabeça de fora’, como ele dizia].

O golpe estava lá, claro, determinado, inequívoco, no telex em que Magalhães Pinto, governador de Minas, comunicava ao sobrinho e diretor-regional do seu banco, José Luiz Magalhães Lins, que a rebelião começara e deviam ser tomadas as providências convenientes. Semanas mais tarde, quando os militares contrários ao golpe começaram a sair da prisão, tive dos coronéis Donato, Joaquim Ignácio Cardoso, Kardec Leme e outros, a explicação para o alheamento do Conselho no dia 31: os oficiais do golpe usaram de diferentes artifícios para manter os oficiais pró-governo ocupados à distância de telefones, rádios e de outros colegas, enquanto fosse possível. Foi possível pela maior parte do dia. Mas de nada adiantaria estarem informados, porque o ‘dispositivo militar’ de Jango era só uma fantasia do general Assis Brasil, um militar de vida pacata que se deixara fascinar pelas tentações fáceis de Brasília.

A falta do ‘dispositivo’ não quer dizer que o golpe fosse incontível. O coronel Heitor Linhares, que descera com as tropas de Minas para o Rio, em narrativas a José e Maria Yedda Linhares e a mim, contava que os soldados debandaram, em pânico, pelas terras à margem da estrada, e foi difícil recompor a ordem. Tinham se apavorado com o aparecimento de nada mais do que um teco-teco da Líder Taxi-Aéreo, emissário de Magalhães Pinto para informá-lo da altura em que estavam os rebelados a caminho do Rio.

Foi a constatação desse estado da tropa, feita depois em um vôo a jato, que levou o coronel Ruy Moreira Lima, comandante do 1º Grupo de Caça, a uma proposta a Jango, quando lhe levou no Palácio das Laranjeiras o relato de seu vôo de observação: bastaria uma bomba lançada na estrada, à frente da tropa, para acabar com a rebelião sem ferir ninguém. Comandante da 3ª. Zona Aérea no Rio, o brigadeiro Francisco Teixeira, identificado como um dos militares ligados ao Partido Comunista, convenceu Jango a recusar a sugestão. Segundo o coronel Heitor Linhares, a soldadesca, quase toda já à espera de dar baixa do serviço militar, teria reagido como Moreira Lima previra.

Depressa me convenci de que a tese generalizada de mais uma intervenção rápida dos militares, como as tantas anteriores, daquela vez estava errada. Eles queriam ficar, portadores de uma carga de ódio sem precedente. Senti o dever sufocante de convencer Mário Wallace Simonsen (dono da TV Excelsior, da Panair e de um jornal em São Paulo, ‘A Nação’, que Cláudio Abramo e Roberto Gusmão tentavam recompor) de que não devíamos continuar com a montagem do novo jornal. O prédio esplêndido foi vendido, máquinas foram vendidas ou tiveram interrompida sua aquisição. Íamos associar a empresa de um empreendedor avançado e uma cooperativa de jornalistas, em torno de um jornal cujo modelo mesmo hoje seria inovador. Essa, porém, foi uma frustração insignificante, entre as tantas outras, inclusive de vidas, que militares facinorosos levariam sua ditadura a causar."

Pais & Filhos

PAIS & FILHOS



A Dico Wanderley



À maneira solene da mudança do tempo

entre as visitas que nos vem à tarde

e as formigas que vem subir

pela arvore da serenidade

anunciaram que ali chegava o meu pai.

E este me abraçou, assim, suave.

Os lampejos me pareceram tão leves

que depois do decorrido tempo

o dia podia se ir sem pressa.

Estávamos nós em um pomar

entre passarinhos e laranjeiras

e tínhamos a chuva fina

como deve ser depois de tudo.

O abraço que me deu era sentido

pleno de todo o amor que viveu.

E então, tudo ali se revelava.

A brisa que acontecia seguidamente

de soprar parava. Por pouco eu não fui feliz.

Homens somos e ficamos

nos defendendo

lustrando a vida a verniz.

O medo não-escamoteado

e a alegria breve.

Dissemo-nos coisas amigas

eu e meu pai, ao ouvido

pois tínhamos que ser

assim, como filhos e pais.

Creio que até vertemos lágrimas

no repasto doce em que nos deixamos

aos poucos minutos em que ficamos

em um interminável abraço.

Ontem reencontrei o meu pai

e foi como se nunca houvera sido.

Falou-me da luta guerreira, e mais

das flores pelo caminho, da cidade natal

de festa, dos anseios de transcendência

do medo de amar, que pode

assim o disse, envenenar.

Ah, quanto tempo se termina por negar

deixando-se o desejo de amar

morrer ao leu, sem palavras.

Ali vai o meu pai! Ainda o vejo!

Na lonjura já se dista.

E ainda que há pouco, em avesso

no pomar, estivesse em minha frente.

Não que tivesse sido perdido o momento.

Um pouco foi cheio de vida, ainda

que encontro difuso, um devaneio

do menino que habita-me em sonho

ainda que suspeitasse haver dele herdado

este ardor de precipícios

e o gosto acido de abismos.

Resta-me um sorriso

à despeito de que nada se possa fazer

pois aqui estou eu só.

- O meu pai já morreu.


Ricardo S. Reis

TROCADILHO

a Antonio Gutman

Queria fazer um "cadinho"
versos como trocadilho.
Rir-me, desviar-me
um "tiquinho"
deste meu sisudo trilho.

Antiga e nada solar como é o Rio
mais para a sombra do Minho
a minha poesia
ainda usa espartilho.

Ricardo Reis
Se o calor do sol perdura
na pedra pome exposta
quem irá crer na noite?

(Ricardo Reis)

Carrossel

Nada sei dos bons momentos.
Nada sobre a sorte
ou sobre vidas
em arremesso.

Não sei em poema lunar
e inda menos em prosa.
Nada sobre a morte
ou do que relata
a noite alta
feita de lume espetacular.

Mas se fosse na brisa das Alterosas
ou se na maresia da beira do cais
se fosse o temor, como estrume
eu, de medo
não morria mais
nem me desfaria em ciúmes
restando-me somente um verso
para sussurrar-te ao ouvido.

Como o gênio da floresta, Ariel
te diria de meu amor - o meu
lírico segredo:
- Eu em total inebrio
e tu à rodar no carrossel.

Epílogo


Sobre o morrer, sabe o cisne
que em seu ultimo canto, volteia
ávido, ativo ou grasnando
como um ganso, incompletudes
do entendimento sobre a vida.
E assim, para nunca mais!

O que houver de ser da vida, será!
Como cisne ou como ganso,
há de morrer, sem sentir, o amor;
há de ser esganado no remanso de um lago
à debater-se um segundo. Não mais.

E tudo estará terminado
a par de todo sagrado suor
de todas as eternas juras
e do tempo que transcendia
em sintese
e que agora estará mudo.

Já não importa o silencio
fortuito e vão
e que o amor fosse imenso.
Resta anulada ave de mentiras
e todos os seus aís.

É tudo e nada no manso lago...
Fica apenas a impressão
e a lembrança
revolvendo o fundo do lodo,
- e os olhos semi-cerrados
da menina que marcava passos
e tinha sorrisos jambicos,
ao som do baião que vem
debaixo do barro do chão
da pista onde se dança.
Nada mais!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cantoria

Cantai! Nada te apresse mais.
Não inquiete não ter onde ir.
As frases não ditas caíam
como almas feitas una,
sementes ao solo,
novel verdejar,
ecoando anosos desejos
nos jardins à florir.

Cantai os delírios de poeta.
Cantai numa opera de gestos.
Os hinos célticos, cantai.
Tecei loas à Deusa Fortuna.
Os pássaros sobre os pomares
que dancem aos Ventos Alisios
e que estirpem do peito o desatino.
O presente momento, dedica-o
aos Deuses; à Dionísio Dendrites
que ainda haverá de vir, pois o amor
é como o vinho: Sempre prevalece
sobre o tempo.
E o Deus far-nos-á espelhos da eternidade.
Nunca se abandone, nunca se esqueça
de que há um constante fluido a renascer
como no ruído da agua corrente
renasce a poesia, e na alegria de um menino
que brinca sozinho,
estão as épicas lembranças
da Batalha de Alcacer-kibir.Cada homem no mundo
é como Dom Sebastião, o infante:
Uma mó solitaria rodando alhures
em roda do proprio pino
e que mesmo sem se dar conta
faz mover os moinhos dos sonhos,
faz o fubá nos monjolos,
a agua e o vento à correr constante.
No tear da vida, nas urdiduras
do proprio destino.

Poética III


A poesia que sai de mim não tem cor,
branca e lívida como eu, exangue.
É melhor mata-la com um tiro no peito,
do que vê-la perder-se num poço sem fundo
procurando o senso médio de sua arkqué
perdida em tédio no meio do mundo.
A poesia que farei, daqui para a frente,
revelará profundo como o Chico Buarque
o ente lírico de todas as mulheres do mundo
e não vai rimar na pobreza amor e dor.
Que asco! Deixará em paz flor, vernáculo e mente,
sem viscosidade, sob fartas doses de remédio para o senso.
A poesia moderna não terá ritmo e nem poética.
Não vai servir à leitor condescendente.

.........................


A culpa pequeno burguesa do beat mangue
não ansiará pela noite negra, sem cor
nada dirá do blackisbeautifful, nada
nada do afro-reague, HipHop, DJs, MCs, Funk.
Nada, nada, nada.
Só será poesia se tiver
a cor inexistente da tarde,
o lapso da mnemesis ardente.
A memória das pedras no caminho, quero ver
para evitar os tropeços e na retina as reter.
Drumondianamente, quero a poesia da paz
dos cemitérios sobreviventes.
O poema roto do fim do planeta;
nenhum para o seu recomeço.

Ah, já me cansei de mistérios iniciáticos.
Não quero mais o coração como tema.
Quero-o rubro pulsante, traspassado
à medieval lança, expostas as coronárias azuis.

.......................


Sem cateterismo literário, submergir
na lambança do linfa,sangue e pus.
Quero a poética das emoções comuns.
Emergir no soro de veias abertas
na ácida droga da madrugada infesta.

O meu poema, que siga-me à revolver
o minhocário com as mãos.
O cheiro úmido da terra; a morte amiga
à espreita.

Que me siga a perseguir
a calma desejada
pois já não consigo coisas
alem da petulância do existir
em um oceano irredento
e sem surpresas.

Do futuro, só o plano de plantar
Cajueiros e pés de Lima da Pérsia
ou belas arvores florais
em um restrito terreno
na Região dos Lagos,
para colorir o cenário
de minhas poesia
(enquanto astronautas dominam
as frias estrelas do céu).

Poética II


Eu faço poesia
com os eflúvios
de um sentir universal
helênico.

Faço-a para velar
a musa em repouso
ouvir o silencio
mesmo sendo o poema
matéria viva
para o não-nada do vulcão
que antecede a erupção.

Inda que a poesia
se pretenda poção druida
em tacho celta
feita de asas de morcego
escamas de borboleta
unhas de dragão;
inda que recendesse
ou não, aos sabores de
Minas Gerais
ou ao agridoce da Cusine Thai...

Inda que se banhasse
no mesmo rio heraclitiano
ou na água de cheiro afrodesejante
até que lhe restasse
só os pendores azulados da morte...

Ah, um tal poema castiço
na certa estará sem prumo
subindo à ribatejo
pedindo ao circunstante
que se revelasse um desejo épico
para poder entoar a Marselhesa
em festa pagã, dionisíca
na arbitrariedade dos fatos
para alcançar, enfim
o fim do século das luzes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um Sopro Lenitivo


Ah, fria brisa eu vos saúdo
Que vens agora do sul varrendo
Funéreos pensamentos e a borda
Plana da pátria - e seus rochedos.
Sobre o pesar da vida, resfria
Aculea febre, terra, hirto medo.

Ah, o sereno tronitroar da aurora
Sem humores carmins da canícula
É o que se anseia caiba em parcelas
E seja a paz da tempestiva certeza
Restituindo todo o feliz regozijo
Mesmo que mesura, inda que baliza.

A morte decidida, horizonte de beleza
Sopra anteparos na mata, leve brisa.
Encontre-se na sonoridade a propria vida
Na fantasia musical pitagórica e airosa.
Sopra rubro no final da plana tarde
Pois quero morrer no fogo de quem goza.

Ricardo Sant’Anna Reis

SONETO EM SI


Soneto em si e só por ser soneto
Sona sonoridades soa harpejos
Refulge nos quartetos e tercetos
Fulgor de cores esplendor de beijos

Soneto em si é sinfonia leve
Iridescente escala em si bemol
Mínima, pausa, allegro em semibreve,
Legatos, staccatos e arrebol

Num instrumento lírico em que a si
La ba sibila e brilha em tons diversos
Vai o soneto versejando e di

Ver si fi can do em rimas o universo.
Entoa a idéia em verso fulgurante:
Cada soneto em si é di-amante!

Oldney Lopes ©

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A LUZ DE BUKOWVISKI


Poética I

A Thomaz Caetano Raymundo

Se quiserdes dizer da poesia
diga como Charles Bukowviski.
Fale o que for sobre a vida
que viver é o mistér da arte.

Diga o que se faz da noite,
que se encerra no pleno do dia.
O que preenche o vazio
que no peito te dilacera.

No fundo do quarto, do bar imundo
do intenso do fundo do fundo de tudo
d’onde tudo vem surgindo, emergindo
e a embriaguez te faz mudo e frio...

insuspeita, qual um fio
da mínima parte, a poesia processa
o dia como no grande Mar Aral,
- que ao princípio nasce de um rio.

E antes dele, a nascente primeva
e tênue; escassa de peixes.
Fale mesmo da vida nanica
e vil, e inda vária.
E, sem precisar, diga-o em poesia.

Ricardo Reis

domingo, 29 de novembro de 2009

CANTAR-TE ALGO EM FADO

A Laura Esteves

Cantar-te algo em fado, profundo
Um grito d´ave do empíreo, estridente
Como em sombras, em vôo solo reticente
Sem sentido, sem rumo no albor do mundo.

Perdida, pois, na mente, a poesia se faz alada
E me diz que sim, diz assim, diz que não
Ao se navegar pelos ares, em tão bela toada
Que se alevante poeira ocre do limo do chão.

Sea a essência da trovoada, mesmo, torto enfado
Cu´que voas magoado sobre carvalhos minhotos.
Encantado, queria além, cantar-te algo em fado...

Algo que no tempo, inda arda em querências
E que da remota dor, se estimando em dormências
Não me obrigue pois estar à calada. e mais nada.

O Fado do Menino Morto *

Escriba estes pensamentos no ano D’el Rey de 1854.
Pola janela do cuarto e desde o jardín madrigal
se lanza por sobre a sebe o meu ollar fatigado.

Fito ao ancho un féretro que arriba ao outeiro en fronte
pola estrada que se espraia no azular do horizonte.
Nel se van vultos mobles, escuro.
Son como contrapontos, homes, mulleres e cabalos
atados á coches funéreos, de sólida tomados.

Dentro do coche principal jaz un neno
que non tivo tempo de se-lo,
e já se vai, casi dor, envolto en tênue penugem.
Un casi feto, cuberto de luz, de lume fátuo e de nuvem.

Esta mañá eu li no obituário do xornal provincial:
"Se morreu da malária malsã, o fillo único
do digníssimo notário".

Alí vai el! Eu o vexo! Digna, de cabeza baixa,
vai como triste pai, liderado o cortejo.
Acompaña dorido a procesión de tales almas en perfil.
Uns empregan sombrias fatiotas
Como estar se debe en un funeral de anjo.

Fito e por máis que olhe, inda que así
de apartado, non podo entender a clave
que en un tal fado elucide o divino arranjo
que de tan raro, faise en insólito arte.

Pregunta: ¿Como é que Deus deixa morrer así
pequeno, así tan preto, no pleno flores
da primavera, e mesmo antes do arrabalde,
antes do fastio da paixón lle arder no peito?

¿Como é que deixa Deus morrer un neno
antes de este se dea conta de o pracer
que vén c'os ares dun matinal frescor?

¿Antes de atinar nas picúlas e nos oficios
de Malazarte? ¿Antes de sentir as paraxes do tempo
nas tarde idas ao balance á sombra frondosa
dunha árbore? ¿Deixar morrer antes do calor
do afectan, que é da vida é a mellor parte?
* em luso-galaico

A pomba no metrô

A Raimundo Correia

Eis que a alva pomba ia-se avoada
no ruído e no terror ia perdida.
E eu a observava e via condenada
assim tomada, de não prever saída.

Quanto mais em asas a ave debatia
mais se afundava no súbito negror.
Aturdida, no ar recluso do metrô
desembalada, fugia de bólidos

comboios, que nem em sonhos antes vira.
Eram trovões imensos, multidões
e nunca mais
um parapeito de prédio alto
ou o grato milho.

Nunca mais nenhum sonir de lira
no toque suave da manhã no arvoredo
a exausta pomba iria inspirar.

O mínimo cuore que no peito lhe palpita
esta pronto para espocar de tanto medo.
Antevê, a bisonha ave urbana em delírio:
- o corpo aéreo, em plumas mais leves
que o ar, caído, morto, sem remédio...

Sem paradeiro, em renovado pavor
estala as asas numa fuga aflitiva
e ainda mais num afã mal sentido
até que se abranda, a pomba
por conformada a ter-lhe chegado
assim, a termo, a vida.

Ah, esta pomba suja e feia!
Pobre e esbaforida ave irmã!
Tu que foste musa do poeta Correia
e que já empunhastes, do Espírito Santo
o frio cetro, vestistes o manto...
Tu que já voastes em excelência
sobre pomares de maçãs
agora cruzas o meu caminho
nestas abóbadas celestes artificiais
(não os céus) de ruídos e túneis
absolutos e sombrios...

Pois é justo neste ar metálico
que teus assombros finos
se confirmam, e que de resto
te faltará a existência.

Já o sentes! O bico fendido
os olhos saltados, vermelhos
no ultimo arrepio...

E a pomba verdadeira
entre dormentes, carcaça caída
no trilho do metrô
morre triste sem mesmo nunca
ter encontrado a saída.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Acordar dos sonhos (Dos dilemas do Ser)

Quero abraçar-me a ti
dentro dum sonho

Tu vindo a caminho
eu indo...

Abraçar-nos com a mirada
incorporando a nós tudo
que nos separa
e então nos une

Fechar os olhos e
abraçar-te
abraçar-me em ti

Pertencer ao Universo dos teus braços
Entregar-me ao calor
com que proteges meus segredos

Sentir a minha alma passar para o teu corpo
Senti-la ir-se
para o teu lado da pele
e saber que virá de volta
sendo tua
sendo uma
inseparável
da tua...

que entra em mim
acordando sonhos passados
e o saber de que nem tempo
nem espaço

Concha Rousia, Galiza

domingo, 22 de novembro de 2009

Os rios e os montes do Rio de Janeiro

I

Suaves montanhas de brutas rochas.
Mata atlântica de nervura infesta
Como os pelos da pubis da mulher
No vertice das pernas sinuosas.

Um amor perdido na cidade
Como existem desejos perdidos
Traineiras perdidas das rotas
Como putas nas esquinas da urbe.

As montanhas são maciças, momentos
De graça, beleza cinzelada
Na pedra e na eternidade.

A cidade não precisa ser perene.
Só almeja ser luz e fugacidade.
As montanhas abraçam a eterna cidade.

II

Na cidade como aratus desembarcados
Tambem os homens vagam perdidos.
Já as montanhas são de pedra, maciças
Sustentam o céu, são mestras vigas.

Por vezes céu platinado, por outras céu de anil.
Os sonhos, porque me sonham? Por me choram os céus?
E as águas, porque das pedras escorrem tanto
As águas que vertem no Brasil como prantos.

O que é do sorriso dos puros? dos homens?
O que é das crianças largadas, sem sonhos?
O que é do medo de enchente, de aguaceiro?

A cidade das águas efluvias e latentes.
A cidade mar e montanhas, das Águas de Março.
A cidade sem planos do Rio de Janeiro.

domingo, 15 de novembro de 2009

NO BRUAR DAS AGUAS FRIAS

no rumorejar dum tempo ido
pola loca de água fria
água bruta que opera e brota
em silencio e no tempo
de um metrônomo marcando
o compasso do viver perdido.

cobrejando em curvas a água ia
fazer-se em caudal de ribeirão
uma vereda cuja rota cruzava a vila.
e na vila nada se via, fiada
no oficio das orações, perdia-se.
e se perdia também no olor
da aguardente, pola serra de Bryon
e no entorno, pola bruma, perdia-se
entre seres das brenhas, os abellons
e a brisa passando, a tarde a bruar
por tras-os-montes, passando,
a passar e já é um rio
que daqui vai renascer no mar alem.

desde a igreja, inda o cantochão
non dava noticia do rio que passando
dista-se no arrulhar.
as aguas fervilhando nas pedras
é o que agora se escutava, alem
de ecos habeis e perenes.

o vital mecanismo das pontes
que atravessam o ceu
e levam polo ar o trem voador.
há pontes do engenho humano
trançadas em aceiros,
a suplantar abismos e desterros.

embaixo das pontes
arrulha um som apurado
que é mais que o azar
dispondo as notas tonais.
é o som das aguas frias
de grave e profunda beleza
tão leve como nunca se obteve
na mais formosa das sinfonias
e a terra na distancia
como estendido comentario
de pedra e de pó era medida no mugir
de um garrote abandonado
que à nai clama na capoeira perdida.
o muar sabe que inda opera e brota
em silencio
a agua e o relogio do tempo
em seu compasso desdobrado
polo sol e polo esterco, pola
brisa do Terral, saneando homens,
gado, levando desejos...

penso na Rosa e em Pondal
fundantes de minha alma varia
e ventura e tudo se esvai num minuto
em repentino e fugaz momento
na ausência lusa que me retorna
como o lampejo primal
de uma fratria imortal e oclusa.

Artur de Bastavales, Vigo, GALIZA, 2009.nov.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Este, já o sabes, é do "outro", o grande mestre! Bem entendido!

Tão cedo passa

Tão cedo passa tudo quando passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


Ricardo Reis
(Fernando Pessoa)

CANÇÃO DE AMOR E DESPEDIDA I (soneto inglês)


A Eduardo Pondal

Canção de Amor e Despedida
A Eduardo Pondal


Amo-te passarinho, em teu vôo contido ao solpor
Como haveria de amar-te livre no pleno do esplendor.
Meu bem! Acolhe este pequeno pássaro cansado
Que’n asas leves leva a ti o meu louvor.
Amei-o ao vê-lo ao chão, assim, ciscante
E por ter, lesto, o portal do céu cruzado.
Oh, ingente passarinho que carrega-me o desejo:
Depõe-no aos pés da bela dama, e a todo o seu ardor!
Que esta sinta-o na intenssidade unica de um beijo!
Dizlá que aqui ando triste, inda que pola fé mais cabal
Decida-se-me como pena, a ventura maior deste amor!
Dizlá, oh passarinho que transpõe o grande pélago
E de pronto a mia casta donzela tributa este carinho
Desde aziago desterro, coa tristeza de amar sozinho.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


HOJE

ESTOCOLMO

MAS
JÁ FUI
MUITO

IRAQUE


Poema do grande Clown e Poeta Dalmo Saraiva

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

POEMA DO DESCONTENTAMENTO


Cansei de viver metade
metade do tempo
metade do amor

de dizer meias verdades
e não ser íntegro comigo mesmo
não ser inteiro, conciso.

Cansei de buscar sentido
em bebidas, pernas compridas
em distâncias: chegadas e partidas

em sair desesperadamente
pra outro lugar sem saber por que
sem nunca encontrar.

Cansei de viver aos bocados
obter parcelado do nada
viver como pedinte

coadjuvante de mim mesmo
considerado estúpido
menos, pouco, irrelevante

engolir o cuspe seco
o sangue, o choro, o dia.
Violentar o próprio corpo

com sorriso nos dentes
desperdiçando o melhor de mim.
Cansei de ser assim.

Fabiano Silva PA

domingo, 1 de novembro de 2009

O Alvor e o Breu do Amor


Se há lua por acima, no céu
E sobre o mar, sobre o deserto
Porque tu vais para tão longe
Se de ti, cá, eu estou perto?

E se a lua é, portanto
Este puro alvor, um puro encanto
Linda, que linda e perdida
No insofismável do breu...

Para dizer-te de meu amor
Nada mais há que me oprima.
Descabe aqui a escassa rima
Para o já precário verso meu.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A FISTERRA




E haviam-se lá os franceses, como noutro tempo os ingleses
E sabem bem, os romanos, às voltas com a egrégia lida.
Vão soerguer por mil vezes a civilização do ocidente.
Assim rompiam então os anos que solitude lhes traziam.

Ao sentido gregário da vida, ao arcabouço do pensamento
À ideação inscrita na mente e desde a helade filosófica
Ou desde os antigos templários, nos umbrais da Arcádia romena
Indo dos Bálcãs desérticos, aos píncaros Alpes, novos ares.

Já lá haviam nas festas nórdicas
Povos tais que edificaram a Europa
Presentes na céltica Escócia
Nas piras funerais de heróis mortos

Os gaélicos edificaram a Europa
Embora, por poetas, não quisessem
A concentração de poderes
A industriação dos impérios
A inventiva dos engenhos
A expansão dos domínios
Como na era pré-burguesa
Expandia-se sobremaneira

A submissão dos corpos ao segredo e todo o comércio de haveres.
Exerciam a dominação dos mistérios, vaticinados ao vagar errante
Acalentando-se por artes, sortilégios iniciáticos
Hábeis mascates do sentido, nas planícies, nos bosques e prados

Habitando aos montes breogántinos, viviam no interior dos nevoeiros
Por entre carvalhos minhotos, se iam medievais calaveiros
Que cavalgavam alem dos vales, que toavam Canções de Amigo
Pelas encostas de Portocalli

Eram poetas, eram mouros, cantantes, cristãos novos ou ciganos
Almas celtas, desde a Bretanha, salvo engano, nos cantões
Entre vivos, nos rochedos, seres da brenha entre arvoredos
Entre mortos, atávicos espectros, inda outros tantos vagavam
Distantes de nós ou tão perto

À razão do maior dos enganos, vivendo ao vigor dos acertos
Correndo, não em busca do ouro, mas polo sonido ou por brilho.
Povos crédulos que vertiam prantos ao colo da nai olvidada
E que a belos cânticos atendiam, libações na floresta druidesca

E tratavam-se todos por lobos, uivando à lua, à tristeza
Tocados assim, deste mundo, um mundo varrido por guerras
Ficava a Nação Leonesa, de um povo marcado e pacífico
A espera de cumprir o vaticínio e salvar a língua portuguesa.

No bruar benfazejo da poesia, seguiram sem alvoroço
Polos mundos na promissão, e por serem só os que erram
Viram-se na beira, na Ibéria, lá onde a terra se acaba
Ao marco de um novo começo, chegados são a Fisterra.

Promontorium sacrum, desde a selvagem rudeza
Dos ventos suevos de Vigo, ali, a herança neolítica.
No Porto da Gália, Gallaecia, áridos confins não-castelhanos
Os nômades galegos, Galiza, da larga pátria intima, defronte

Aos portugueses ares, os que sobraram, sobejos
E que ficaram a ver navios nos portos
Donde o sol, ferro em brasa
Extinguindo no mar, no horizonte
Alem, nas praias peninsulares
Onde pisavam os homens nos seixos
Na rarefeita vegetação, os desejos

Desejos barrocos caídos no chão
E na pressa, os homens seguiam sem beijos
Pisavam nos turfos esparsos, ali
Era o prelúdio de uma vocação

O melancólico abandono dos lares
Que remota casa já perdiam
Remotos, do mar, os caminhos
A que se lançavam desde o Minho

Pelo Tejo - e d’alemar? o que virá?
“nada nós vemos”...diziam
“de coisa alguma sabemos, a não ser que
no velho mundo, nada mais a palmilhar”.

A insuspeita aventura humana
Equivalia a se lançar ao incerto
Às descrições virgilianas
Na coragem maior que já se viu

Montaram, pois, na burrinha
De sua maior riqueza
- a esculpida língua portuguesa.
Da antiga cultura romântica

E saíram-se pelo mundo a fora
Ajudaram a formar o Brasil
E o mundo d’ocidente
Alegres e tristes heróis de ventura

Reservados como devem os cientes
De lôbregos segredos, os que não soçobram
Aos reis vis de Castella
E seja o homem virtuoso

Seja a mulher de pia fronte
Foram povoar o novo mundo
De nós, tão longe e tão perto
Que não se lhes acusem o medo

Pois se partia do porto ao sol cedo
A transitar o mar aberto
Para alem do horizonte
Em velas enfunadas de utopia

- ao chamado de sermos
Todos nós os galegos

sábado, 24 de outubro de 2009

CIRANDA


roupa de missa
primeira comunhão
batizado
quermesse
almoço em família
frango assado
macarrão
tutu à mineira
pudim-de-leite
“Hoje é domingo
Pé de cachimbo”...
vassoura atrás da porta
espanta visita

o anjo da noite
vara o tempo...
...”A gente é fraca
Cai no buraco”...
perde mãe
pai
não reza
vira ateu
engorda
“Come o pão que o diabo amassou”
e na segunda começa dieta
...”Buraco é fundo
Acabou o mundo.”

então...
uma simpatia
livra-nos do fastio
de sermos adultos
para sempre

Fátima Cerqueira / Juíz de Fora, MG

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

amor natural

quero um amor comum
que só me encante
que nunca me inquiete
um que não me conte
as horas
nem que me conte
os silêncios mudos

quero um amor comum
teatro minimalista
em que cada gesto
nada signifique
alem dele próprio

quero um amor natural
amor no banco da praça
de mãos dadas
leve e profundo
não, não quero
mais nada

só quero
um simples amor
para mudar o mundo

Poema erótico sobre a mulher, o mar e os quatro elementos

O poeta fora amar
uma mulher na praia
na pedra de minério
junto à arrebentação.

A onda se afirmava
na horizontal
vinha vindo, vezes sim
vezes não.

Na espuma branca
pululava
quase fonte, enxurros
da acidez de sal.

Pelas fendas
de recônditas rochas
o poeta observava
voyer, à ondas se armando
em vivo sexo elemental.

No longe, n’alto-mar
defloradas na premência vã do agora
iam-se como marolas
que choram.
e a vaga de ontem
era como se fora
a sumula da que
seria a de amanhã.

Era como um gozo
continuado, múltiplo
interminável de amor
tal qual só podem
homens e mulheres que se amam
em um furor de fogo
e que se sugerem
sempre ao sol restante.

Mais do que a eternidade
restava ali
um único instante.
Os seios da mulher
já pontuam eriçados
prontos ao roçar do dente
ao frescor dos lábios.

Sob a penumbra noturnia e bela
ofereciam-se à sombra da noite.
Mas pousava o olhar, o poeta
que se cria sábio
no remanso esquecido
do quebra-mar
sobre a pedra.

Na avidez perdida
de Eros, o amor proposto
então já ardia
consumação de Poseidon e de Fedra.

E vinha no fluir do vento
ainda mais algum elemento
a lembrar o pecado capital.
A maresia e no ar o aroma
de caju suculento ou romã.

Disposta e languida na areia
a mulher esquecida, perdida
pedia a brisa e o vento
para se aliviar
da secura da canícula.

O frisson do corpo
os beijos vadios
na pele da nuca
no bico do seio.

Infinitivo do amor total.
Nunca o vértice entre
as suas pernas
fora mais ardente
e sensual.

Era como um figo
maduro e aberto, exposto
sua rugosa vermelhidão
que exalava, aguava-se
para a devoração da língua.

Ah, poeta! Que péssimo amante!
Ali a mulher deixada à míngua
e seu olhar resvalando atônito
do corpo líquido e quente
perdia-se no tirocínio da mente
perdia-se na observância inútil
da lubricidade inconsútil do mar.

AMOR I

mais do que destino traçado
sob a égide da lua cheia
me perder em tí foi tal
como sinal trocado de uma
vital sustança
uma rediviva sina
de augusta esperança
em meia noite fria
(penso)
e esta lua que alumia
me diz que ainda posso
viver amor assim, intenso

AMARAMORAMANDO

amo este amor e
sigo amando inda
que a estrela rebrilhe
reclanando a falta
da poética dedicada.
sem saber como
nem saber o porque
eu me perco
nesta caminhada
para expiar o adoecer.

e neste amor tisnado
pela estrada vou sozinho
ficando para trás no caminho
chutando pedras
em triste devaneio.
e elas pedras
não me dizem nada.

espero apenas
por você, amor
prenhe deste amar
que me explica
vê se então
não vai embora
vê se então
não mais complica.

quem de fato ama
sempre amando fica.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A NUVEM QUE PASSA E QUE PASSA



A Rosalia de Castro

Passa, porque me passa a nuvem
Que já foi suave foi sombra
Sobre o chão de Bastavales.
Hoje, polo céu azul do Brasil
Pega-me de amor galego
Traz-me a paz polos aires
Em rolos de fume.

Ah, Bastavales, Bastavales
Inda oiço nas campas da esperança
A Rosa que te nomeai
Pisando em tuas folhas verdes
Carpindo tuas letras olvidadas.

Ah, nuvem ridente, medieval campesinha
Que me passa em teu bruar
Polo meu desterro, desde tão longe
Da Nai e Nação Galega.
Dá-me tuas nuvens como chalés dunha fina estampa roja
Como um fim de tarde sem nenhum peso
Na fronte a nos turbar.

Así, irmão a ti por esta nuvem leve
Querer-te também bem-vindo a vida
Sem tempo, sem um fim e sem começo
Como no horizonte da Fisterra
En que todo o mal en unha oração se evita
Antes de lançar-se ao mar
O como num encanto no caldeiro druida
Na clareira do bosque frondoso
E negro de Vigo
Como no mistério oclusivas
Que em todo bem se permita.

Artur de Bastavales

Vigo - GA, 2009 10 20

sábado, 17 de outubro de 2009

O VERGER DO MOIRÃO


I

Como se da vida nos mostrando tais facetas
Que as alcançamos em seu dispor natural
Vento vem de encontro às vigorantes relvas
Ou a arvore de um amor plantado; beleza sem igual.

E o vento traz de rebordo o fulgente mar
Chiando tanto entre galhos secos, que o alarido
Das crianças soltas à praia, vem à mente e ao ouvido.
São os canários, bem-te-vis e tordos a cantar.

Mas se tudo parece um aquietar derradeiro
Nada passível de interromper a promissão...
É quando se desloca o olhar mais para o lado

E vê-se na estrada em que vai à penumbra, o cavaleiro
Que a hirsuta sombra vem de um pequeno moirão plantado
Que então brotou, vergeu como soberba arvore do chão.


II

A vetusta arvore que sempre se quis moirão
De tronco torto e de feiúra mais que espessa
Elide a morte, que quer que se lhe olvide
A existência assim tão singular.

Não quer sofrer, do corte, inabalável dor.
Quer sobrevir ao eco, ao fim-dos-tempos
Sem que lhes empatem os tíbios lamentos
Sem pretender gastar-se em flamas de ardor.

Não chama pássaros à denúncia do ocaso
Ter ninhos ou ser matéria para lenhos, não
Não, nada alem do sol nos vãos momentos.
A arvore vetusta que sempre se quis moirão.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

PARA O FLÂNEUR MARIO QUINTANA



Ah, doce poeta morto dos becos de Porto.
Está na cidade o que de ti nos resta
como reminiscência desta da urgência.
A cidade por teus passos mapeada
num existir onírico, sem pressa.

São mesmo de ti os pampeiros laços
de uma urbe sonhada, onde a vida segue
nos recortes medianeiros
e no espanto surpreendente das esquinas.

Ah, doce poeta morto dos becos de Porto.
Hoje, passando pelo Hotel Magestic
cruzei as vitrinas do saguão principal.

Os corredores do hotel são labirintos borgianos
incorporados em uma fábula de triste abdicação.

Adentrei surdamente em teu quarto
com meu olhar invasor.
Vi teu fato de dandi chique;
vi,por fazer, a tua cama de velho, abandonada.

Vi palavras, versos, poemas, cigarros
e jornais pelos cantos, notícias vãs congeladas
em um velho televisor preto e branco.

E além?
Freqüentei o teu bar, o teu café
conspurquei o teu encanto.
Que mais?

Palmilhei depois, pé a pé
a cidade que te anuncia
nesta tarde azulada e fria.

E a cidade se ia recomposta nos fonemas
martelados por sapos livres
na praça dos passarinhos
ali, bem perto do Mercado Público
onde os que atravancaram
a poesia e o caminho, por ti não passarão.

Ah, doce poeta morto dos becos de Porto.
Ah, doce fluir do Guaíba
Mar Particular, mais do que lago.

Desde este solário em que eu te vejo a flanar
poeta Quintana, nos triste ventos azuis
de Porto Alegre...
Ventos que me fazem fremer
os ossos e a alma leve pelo Bric da Redenção.

De noite, em uma poesia de essência urbana
vou descrever-te na solitude do poema
ardendo pelas estrelas na dor que emana
da intesidade da paixão e da febre.


out 2009

(passando por POA a caminho
de Bento Gonçalves)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A FLAUTISTA APAIXONADA

Soava Weber
para um amor do passado.
Vez por outra do uirapuru
um trinado
anunciava a meiga
letargia da brisa.

Debruçada sobre
um jardim interior
uma velha senhora flautista
apaixonada, soava Mozart
Bach e Rachimaninov.

O som da flauta era tênue e doce
e flanava como se fora o acorde
d’um sopro que a vida permissiva

mal grado ainda lhe inspirava.
A flauta transversa como do amor
a primeira vértebra
era azougue

que desatava o nó górdio
no peito, e fremia sem sentido
fremia sem ter jeito.
E assim o tempo
se encarnava de auroras

na promessa lenitiva
do entardecer.

Que mais deste contralto na alma?
Que mais desta emoção rasgada?
Como lastros, apetecidas
as estrelas cadentes
caiam no quintal da casa.
Que mais do rastilho da vida
que já pulsou quase inteira?
O semitom, a arte nobre e nômade
capaz de um voar sem asas.

Só a arte sustenta um amor assim
que vá ao limite da loucura.
Só a arte e o amor gritam juntos

Do cimo do monte
da copa da arvore.
Amor é como doença devastadora
da qual não se tem
nem quer ter-se a cura.

MANTO BAUDELAIRIANO

Oh, língua portuguesa
deixe-me à fortuna
de vestir, do poeta, o manto.

Oh, deixe-me à placidez
à mesura que não seja nobre
à charada de pouca monta.

Um viver de curto calibre
não é mais caso para mim.
Não quero a mera flor
da inocência
só arroubos profundos.

Quero rodar roda ao mundo
derramar-me
de sua pura essência.

Oh, deixe-me viver o poema
dos linimentos mais raros
inda que o mundo anoiteça
sempre que a beleza intenta.

Inda quando a noite radica
em um céu, egrégio mata-borrão
sequer caída uma estrela ao chão.

A poesia mandingueira não abdica. A vida Inteira requer para resvalar-se
em todo encanto;
se a crueza da vida nos é dura
já vem o poeta-santo
e o sortilégio
de seu manto-parangolé.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AVIS-RARA

te rasgo a anágua
para ver-te aguar
mina preciosa
onipotente como Ares no céu.
Deus capital na bucólica tarde.

buenos te serão
los aires
e tu, pássaro puro apego
no peito que ainda arde.

seja ou então pare
emparelhe o teu corpo
e chegue
perto, perto
e nunca mais repare
no meu jeito assim incerto.

domingo, 27 de setembro de 2009

Apresentação do livro DIARIO DA IMPERFEITA NATUREZA por JORGE SALOMÃO


A arte surpreende sempre. Ezra Pound diz que: “A poesia difere da prosa pelas cores concretas de sua dicção”. Diário da Imperfeita Natureza, do poeta Ricardo Sant´Anna Reis. Já no título você é tomado por um impacto de beleza estilística. Seguindo e passeando pelo corpo do livro, vamos encontrar pontos de luzes que nos questionam e nos adicionam. “De repente, tudo se dá aos tropeços, sem ciência. O fim das coisas, igual ao começo”. Um poeta de múltiplas vozes, tons e sons. “devorar, num ritual antropofágico, minhas referencias”. Seguindo página a página, o livro vai indo e te tomando, num misto de elaboração, sabedoria e domínio da escrita. O poeta dança solto e dá show de construção no ofício do fazer. Fique atento e siga a trilha: Ricardo Sant´Anna Reis chegou para afirmar que poesia é coisa fina. E é: Demanda ao Mestre Pessoa, Uma Clara Tessitura, Gazal de Aprendiz, O Corsário, Poema para Walt Whitman, etc. O poeta, seus amores, suas interrogações e seus caminhos. Colhendo no ar a viva tradição, Diário da Imperfeita Natureza traz em seu bojo a marca de civilizações várias. É a afirmação de nova e contundente voz na poesia deste Brasil de dimensões continentais.
Luz, luz, luz!

Rio, agosto de 2007
Jorge Salomão

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MENINA DE TRANÇAS


I

A menina de tranças
armava um jogo de pedras
bulitas multicoloridas
lajedo do rio, de pedra
arenoso, lavra
cada pedra escolhida
uma palavra separava.

Depois, outra medida
a palavra sentida ela amava.
Era num horizonte perdido;
e havia uma pedra de mar
que se revolvia nas ondas;
e uma pedra chamada anel
que em conchas anelava-se;
e se era azul a cor do céu
dizia a menina, lápis-lazúli
era a pedra de azular.

Se patos no alto apontavam
a menina batizava
a pedra.
Pensava em revoada, fluía
disparava na imaginação
se deixava, costumeira.

Como um trigueiro navio
ela tecia tramas de bilro
à sombra da palmeira
tecia um vestido de névoa
alinhavado com brilhos de rio.

II.

A menina de tranças sonhava.
Queria de alguém bem bonito
Ser a primeira namorada.

Esperando o amor, acontecia
De dançar alegre e em tal fulgor
Ao poente, no fim do dia

Que o próprio sol admirado
A mirava enquanto anoitecia.
Dançava sozinha e tão plena

Que dançando trançava aprendia
O seu lírico destinar de menina
Lírica, derramada em poesia.

AMOR NATURAL

quero um amor
comum
que só me encante
nunca me inquiete
não me conte as horas
nem conte
meus silêncios mudos

quero um amor
teatro minimalista
onde cada gesto
nada signifique
alem
dele próprio

quero um amor
natural
leve e profundo
no banco da praça
de mãos dadas

não quero
mais nada

só um simples amor
para mudar
o mundo

MEDOPÉIA


I

Natural é que homens queiram
Desviar o curso dos rios
No momento
De seus valores preservar.
Mas não se pode
Pelo novo deixar-se intimidar.

Inda mais quando se sabe
Que andam juntos
A critica e o conhecimento.
As vezes algo nos refreia.
O que é, não sabemos dizer
Neste tempo que receia
Em que estamos a viver.

Vemos que tudo se paralisa
E ficamos em tímidos passos
Sem viver a vida em cores
Sem buscar grandes amores
E o trinado alegre dos pássaros.

Ter medo é viver sem poesia
Sem convicções e ardores.
Faz perder a liberdade
E deforma as emoções.

Este medo não instrui, domina.
De aprender o que a vida ensina
Faz perder a oportunidade.
.....................................................

II

Aldeante tribal em vão transita
N’atmosphera de estultícias
Em despejamentos soerguidos
Continuum ir de uma alma aflita.
Já Rimbaud não erra por quereres
Na flama que lhe queima no inferno
A claridade exposta ao som de um sino
Vogais latentes, palavras vãs cheias de erres.
Ah, solidão errante em trilhas de hemisfério
Como inventada em Alighieri por Dante
Denunciando a derrocada do Deus do mistério
No coração condenado ao destino mutante.
O calor tremendo descarna os ossos
E deixa-os cintilar por sobre a terra.
...................................

III

O vaticínio completa o castigo apressa
Faz-se rumor sob as armas inimigas
Obriga-o a ser caminhante e Guesa
A ser o condor de idéias tão antigas.
Já o disse Borges que afora as estrelas
Não há outros seres vivos nos céus.
Só flexíveis e helicoidais harpias.
Não há espectros nem lugar para Deus.
Que saberei eu do rei das trapaças
Mais que sei dos tatus as carapaças
Mais do que assombram os sacis à criança
Ou sei do velho de barba hirsuta e branca.
Soam as melopéias infernais
A infundir o medo, nada mais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

MODO DE PRODUÇÃO

arte como arte
mundo lento
em boa parte
viz-a-viz
a poesia e o vento

estetas partem
do todo
aparte
os amantes
passeiam
no parque

o curdo
homem-bomba
é surdo
à razão
e arromba

indústria
artesania
vai-se a monotonia
(que deus nos ajude)
em meio
a tantas mudanças

com a menor parte
que nunca
fique o artista
pois que é
o burocrata
da cultura
aquele que
parte e reparte
mas que nunca
nunca mesmo
irá alem de vir à ser
critico de arte

ARREPENDIMENTO

não te quis quando viestes
e não te prometi o Everest
nem mesmo devolvi-te amor
que era mesmo assim tão
pleno de alegria.

tive, do Amar, o medo
e daquilo que sentiria
se a ti me fosse entregar.
tive medo daquele amor
que me tomava por dentro

naquele exato momento
em que te via a flanar.
hoje em dia é tua lacuna
que mais do que impede-me
a leveza; melhor teria sido

ter-lhe dito de pronto
que sem você, invadir-me-ia
o desespero e, como
num fado ateu, a tristeza
iria tomar-me então por inteiro.

Para que chorar?

Nada há a festejar nestes tempos
senão o sorriso ainda possível
a qualquer criança.
Neste preciso momento
nenhum vento há turvando o mar.

Provar de uma canjiquinha
com jabá e pimentinha
da indefectível cachaça;
e após, deitar-se numa esteira
no chão da casa materna para descansar.

Nesta hora lhe vem
a vontade intima de chorar.
Mas para que chorar, se para
o prazer e para o amor
sempre um coração sozinho
num relance d’olhos
se pode vir à encontrar?

MATIZES

a Charles Baudelaire

Estar contigo na embriaguez da hora
E no frescor da chuva na tarde.
Recordar de um tempo castiço
No negrume da madrugada alta.

Procurar pelo poema da aurora
No começo da manhã.
O dia azulando seus matizes
No buliçoso viço do ir-e-vir
No aroma doce da maçã.

Ah, fazer-te em tema de verso
Viver da parca felicidade
Concentrado, não disperso
Ao invadir tua cidade.

E por fim, voar como o flanar
Que aprecio, das meretrizes
Que são mais dignas que juízes.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

CARTA DA GALIZA AO BRASIL

Meu bem-querido irmão:

Antes de mais permite-me que me apresente, há tantas cousas erradas que te tem contado de mim, e eu quero, necessito mesmo, que tu me conheças como eu sou. O meu nome é Galiza, ocupo o Noroeste da península Ibérica, sou geograficamente, culturalmente e linguisticamente irmã de Portugal, que fica ao meu Sul, do outro lado do rio Minho; uma pequeninha parte de mim permaneceu sempre independente de qualquer estado até meados do século XIX, mas hoje sou um território totalmente dominado polo Estado Espanhol... Eu sou uma velha pátria que esqueceu já a sua idade; mas o que nunca vou esquecer, mesmo que ao mundo lhe custe perceber, é que em mim nasceu e se criou a nossa língua; esta que tu e eu falamos e que por vicissitudes da história se conhece internacionalmente apenas como ‘português’ mas que nós aqui também chamamos ‘galego’. Mas deixa-me continuar a te contar...

Permite-me que te fale um bocadinho da minha longa história. Eu sou a velha terra chamada ‘Calaica’ Terra onde, como já te disse, nasceu e se criou esta nossa formosa língua; um dia eu fui grande... naqueles tempos foram os meus filhos os que emigrados povoaram a Bretanha, o Centro dos Alpes, e as ilhas Britânicas, consolidando durante milênios a laborada cultura Atlântica. Vai ser muito difícil para mim em poucas palavras resumir-te tantos azares, tantas batalhas, tantas façanhas e também tanta dor e tanto sangue derramado.

Muitos foram os povos que quiseram governar-me, pola cobiça do Ouro, pola riqueza mineira que guardava a minha entranha; chegaram legados de Roma ávidos de conquista e saque, para abrir seu domínio, atravessando do Douro as margens, mas antes tiveram que ceifar 50.000 almas indomáveis, que a peito nu combatiam, porque cobrir o peito era para eles ação de cobardes. Do Latim trazido com as suas outras falas, misturou-se através dos séculos nossa céltica linguagem, para que abrolhasse na Idade Media a língua que agora, meu irmão em espírito, embeleces arrolando-a, com o amor e a exuberância das florestas incontornáveis. Essa língua mesma nascida para amar e ser cantada criou uma das maiores culturas da Europa Medieval, polo caminho de Sant Iago difundida e admirada. Mas tarde, nas lutas dos reinos Ibéricos polo controlo da Hispânia, fui vencida e humilhada polos reis Católicos de Castela e seus ferozes aliados, para pronto, sem dar-me fôlego, à escuridão ser condenada. Atrás ficara o 1º Reino da Europa a liberar-se do Império romano, no século V, polo embate dos aguerridos suevos. Atrás ficaram as lutas entre Afonso Henriques, 1 º rei português, meu filho do Porto Calem, e seu primo Afonso VII, imperador de toda a Gallaecia.
Minhas glórias foram vendidas pola arrogância e a astúcia dos homens, pola traição dos insensatos; meu nome da historia foi apagado. Mas o espírito só adormeceu, e centos de anos mais tarde, as vozes de Rosalia, Pondal, Curros Enriquez e muitos outros, alguns mártires em Carral, ergueram de novo esta chama que agora te entrego irmão na confiança, sabendo que farás bom uso dela, e elevarás no continente americano, como na África e Oceania, onde outros irmãos nos aclamam, a voz lírica deste novo mundo, lusofonia chamado, para que nunca mais a vida nascida das minhas entranhas seja por outros desprezada.

Eis a minha história, irmão Brasil, ainda hoje continuam meus filhos, contra a ignorância lutando, pola dignidade deste recanto que foi berço da cultura que hoje tu com orgulho ao mundo amostras sem arrogância. Continuarão ainda cá tempos difíceis que pronto iremos superando com ajuda dos nossos irmãos que conhecem a nossa palavra, por que a palavra hoje é carne e mora vestida de raças, para os povos unir na nobreza da que foi criada.

Como vês, querido irmão, a minha luta tem sido longa e sem tréguas, tenho de admitir que vou velha e por vezes me sinto cansada... Acho alívio em saber que tu herdaste a minha fala e que em ti nunca se apagará a minha chama; não é que eu recuse a luta, mas tenho que ser realista... o destino da nossa língua, língua em que eternamente viajará a minha alma, aqui na pátria mãe, ainda é incerto.

Há um ano um grupo de intelectuais e artistas, professores, escritores, e defensores da nossa cultura, criaram a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). A ajuda da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras foi notável e imprescindível. A AGLP, a que sinto como a minha filha mais nova, tentará abrir os caminhos que rompam o cerco que nos sítia e nos abafa; do seu êxito depende em grande medida o meu futuro, é por isso que te peço a acolhas com agarimo e a ajudes no que puderes em nome da nossa eterna irmandade.

A nossa língua atravessa uma das suas piores etapas de todos os tempos na terra berço, a terra mãe que com tanto amor a viu nascer, e a seus filhos e filhas de todo o mundo envia hoje a sua voz... Voz que vai na procura de ajuda que tanto necessito, ajuda que restaure a minha dignidade, peço não continuar a ser ignorada. Por isso te falo, querido irmão, por isso te falo...

Recebe de mim a palavra que mais estimes, meu amado irmão Brasil

Assinado: A Galiza


(da Autoria do Clube dos Poetas Vivos: Artur A. Novelhe, Belém de Andrade, José Manuel Barbosa, e Concha Rousia)

domingo, 20 de setembro de 2009

POEMA

Para se ter direito a um poema
é preciso penetrar-lhe os silêncios

é preciso um mínimo
uma pausa que seja mas pausa
de semibreve

não de colcheias serelepes
ou confusas semifusas

que o poema precisa de t e m p o respiração relaxamento


para se ter direito a um poema
é preciso interpretar-lhe os gritos

suas trilhas cachoeiras suas muitas corredeiras


palavras são lâminas lama que cura
que corta
que sangra


que provoca indeléveis rup turas

para se ter direito a um poema
é preciso ter coragem de se ver

se reconhecer
do outro lado do espelho
do outro lado da margem

Telmas Da Costa

FICÇÃO POÉTICA

Fingir é condição recorrente e inata
E a inverdade se justifica no viver.
O poeta, como profeta da revelação
Inventa um mundo na arte, em seu verter.

E se o poeta decide então sofrer
Não mais é necessário mentir tanto
Pois capaz será da beleza ver
de reparar na vida e em seu espanto.

E se lhe angustia no coração
O paradoxo de um mais forte sentimento
Perdura-se, o poeta, no sublime e na paixão
será preciso exagerar no sofrimento.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DESIDÉRIO

não privar mais do eu profundo
piano ao longe, cão na estrada
chuva fina, corta no fio o rosto
qualquer vontade não se instala
a antiguidade do desejo é posto
na imensidão de um vasto mundo.
uma ovelha pastando, marca
o tempo infinito a desdobrar
na sinfonia dos passarinhos
no gorjeio manifesto ao ar
nos amores e cantos territoriais
a elegia no viço das flores
um verde que não se acaba
e que é fonte de toda paz
nenhum mal, alegria, nada mais
num jeito de estar natural.

ANTI-ECLESIASTES

Os sinais do Apocalipse, o fim do mundo
Juan de La Cruz e a prognose pantagruélica
As vãs profecias de Nostradamus
As visões de mistério e a alta Stela
Do princípio, Alfa ou Ômega
A morte e a vida, érebo de serralhas
O anjo primeiro a ditar finda ecógla
Candelabros da Eclésia de Éfeso
Alumiando a glória de Deus nas alturas...
Pois que é a luz do chão que alumeia, das profundas.
Dão-se glorias excelsas às trevas, ao rei das Fornalhas
Ou das grandes águas, Satã, Balaão, Pai da Sinagoga

Que, dos tempos, vaticina solidões amargas
Neste mar de dracmas, cevada e lagrimas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ESTELAR

Céu da boca, vãos cometas
Riscos de desejos.
Dançar um tango
Em verso & prosa.
Em Mar Del Plata, um Mar de Rosas.
Eu te quis. Tu me deste um beijo.
Que seja assim
Ou seja como for
E queria que fosse somente tu
O meu ingente amor.
Céu aberto, no chão de estrelas
Siderada, perdida, de todo incerta
Vai a corveta esbelta trafegando o pélago
Sob a luz de um luar azul.
Noite de vagas infensas
Tenaz holandês voador
Rumando à estrela do pólo sul.

ARS

A Dra Nise da Silveira


Desenevoar o medo
no âmago da tarde meiga
pois eles nos querem mortos
mas nós jamais feneceremos
se nos fica a poesia
ou se fica a palavra sentida.
Os outros é que se irão
para onde nós não os vemos.

Vestimo-nos de sombras.
Sendo assim, entrementes
investiremos contra
o árido tempo
e vagaremos por aí a esmo
mesmo que emparedados
imóveis em sonhos
em um museu do inconsciente.

Alem do sentido do prazer
há o sentido da loucura
do poema, da retórica
o sentido na lingüística
e o poder da imaginação.

Há a filosofia, que é aríete da arte.
A diferença entre o hedonista
e o pensador
está na etimologia da palavra.

Arte é articulação. E de outra parte
é fazer artifício, discurso
dar significação, promover hierarquias, liberar os sentidos
todos, passo após passo.

É tarde para os Deuses
e é cedo para o ser.
O que será este objeto perdido
caído em um canto escuro do chão?
O que mais será isto para Heidegger
do que é para mim um parvo
par de sapatos?

A APRESENTAÇÃO DO MEU NOVO LIVRO, POR MARCUS VINÍCIUS QUIROGA


A INSTÁVEL PERMANÊNCIA

O poeta, mais que escrever sobre a morte, escreve contra a
morte. Melhor: contra as mortes, porque muitas são as finitudes.
Se, por um lado, o tema é único; por outro, múltiplas são as signifi-
cações da morte: física, espiritual, amorosa, social ou política.

Em diversas dicções também o poeta recorda, expõe,analisa, pensa
o seu inventário de perdas. A situação-limite da proximidade da morte
que motivou os 51 poemas e uma historieta se desdobra no mapeamento do morrer cotidiano, contra o qual ele oferece a poesia, como é dito em ARS - verdadeira profissão de fé lírico-existencial:”Nós jamais feneceremos/ se nos fica a poesia/
ou se fica a palavra sentida.”

O leitor está diante de textos maduros que se utilizam de um vasto repertório de expressão, alternando formas fixas e livres, que vão do experimentalismo ao soneto;
mesclando registros, do vulgar ao solene; e variando do poema-minuto ao narrativo, pois afinal “a poesia é uma fome daquelas/ de não saciar”.

Segundo livro de Ricardo Sant’anna Reis, Derradeiro Prelúdio é obra que se singulariza pelo riqueza vocabular e pela força imagística, a serviço
de um lirismo de alta voltagem reflexiva, do qual A dualidade da vida é só um
exemplo, que agora parafraseio: “A poesia, meus senhores, não é assim tão leve;/
Não se a vive impune.”

Só uma poesia de falsa leveza para resgatar na linguagem a instável
permanência do existir, dando-nos a lição de que a palavra sempre resiste à morte,
porque obstinada, mesmo em sua fragilidaDE.

Marcus Vinicius Quiroga - Poeta, Crítico, Ensaísta, Doutor em Literatura Brasileira

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O MAR EM MIM


Levo o mar dentro
levo o mar na palavra

e quando te falo
eu sei que te inundo

Concha Rousia

domingo, 13 de setembro de 2009

PALPITAÇÃO

Se você ousou, o que importa?
O tempo é ontem
quando tudo valeu a pena.
Se você chorou, não cuides mais.
O sentido do pranto já está
incurso no corpo do poema.
Se temeu, então que seja.
O alarme do gato só se elucida
durante o salto.

Nada é tão puro
e nem tão indiferente
para um coração doído.
Mesmo a ave que voa livre
traz no peito (e sofre ainda)
aquele gato excluído.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Decisão de Amar

Como os quero-queros e as gralhas
talvez eu aprenda a acordar cedo
para fazer poemas
espelhando a vontade de amar.

Ou quem sabe eu deva seguir
com o vento
que desce pela colina na tarde...

Talvez me caiba aprender
as falas dos passarinhos
no arvoredo
e reter lembranças
das mulheres na lucidez do outono.

O recalcitrante, na cidade, o medo
inda acompanhe-me um pouco mais
antes que o azul, pela janela
ilumine meus cinquentanos...

Quiçá o longínquo riso de
criança
não seja o emplastro desta inútil vida?

Amei sim, e muito alem.
Talvez lhe deva
uma explicação
já que as expectativas morrem
amiúde, a cada manhã
e os sonhos, estes
não se acabam jamais.

sábado, 11 de julho de 2009

Poema resposta ao poema de Fabiano Silva, a mim dedicado

A FOME DA POESIA
A Fabiano Silva

A fome da poesia
é uma fome árida
fome de areia cabralina.

É mais do que uma fome inteira;
é uma fome que é fome
e meia

seja no pino do meio-dia
ou no orvalho da lua cheia.

E esta areia é tão plena e disforme
quisplody’aguazuldeamaralina
entranha na pele do homem
mais do que
em sua alma insone.

A poesia, como esta mítica areia
vem que vem voando no vento
vem como fina maresia

e assenta na face
seca
do pescador/poeta.

Se esta aridez não lhe mata a fome
agudiza, e este
já não pode viver sem ela.

Ah! Meu caro amigo
que segue nesta sede
sem o vinho da existência
a findar.

Se a poesia é uma fome daquelas
de não saciar
comamos o que nos resta
no alguidar.

Do poeta Fabiano Silva, de Belem do Pará PA, dedicado a mim...


Meu amigo da fome,
meu compadre poeta,
comemos sem fastio
nossa farinha adversa.

A farinha da poesia –
farinha feita de terra –
que polvilha todas as coisas
com seu corpo de areia.

Forçamos seu adoçar,
farinha grossa e azeda,
mas não adocicando ao ponto
das formigas quererem-na,

adocicando-a apenas
para esconder a aspereza
sem deixar se perder
seu caráter de areia.

A farinha da poesia
comemos sem pressa,
mas temos fome de glutões,
fome que não cessa;

comemos sem pressa
e sem pressa terminamo-la,
do alguidar ou panela
em que ela se encontra;

comemos diariamente
e sempre a resposta inversa:
ao invés de saciarmo-nos
temos mais fome dela.

Diariamente comemos
e todo dia sempre a mesma
fome, fome que ultrapassa
à fome da matéria.

É uma fome mais que fome,
fome calcária, de pedra,
criando dentro do abdômen
pedregulhos e estelas,

é uma fome mais que fome,
absurda e concreta,
é uma vontade de comer
e ser comido por ela.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

RITORNELO



Para um quarteto, de cordas e mais flauta
Que de transversa vai à pura sono ridade
Num apuro de acordes, facho de luz, feixe de prata.

Na toccata, instrumentos elidam tons em semibreve.
Das cordas retesadas, ao vivace se projetam
Notas tais, que deixam a alma em Alevare.

Sustenida à rítmica em um contrabaixo repique
Chora vai no lamento, a viola enluarada.
Ao violão, castiço, se devota apaixonada.

Eis que me entrego à doce perdiçon, mi longa a vida
Que assola ou reconduz em calma inteira
Ao ritornelo de uma música de essência e de falta

Como um nuevo tango atonal de Piazzola
Uma dor nova em versão bela e decidida
Para um quarteto, de cordas e mais flauta.

Ricardo Reis, julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

POÉTICA DA DOR DE AMOR


A dor, como se me assalta,
Ao cabo de toda sorte,
Renova-se, plena, excruciante,
Criadora cabal do meu sentido sobrante.

O amor, ah o amor no meu peito residente
Como esta dor toda fundante...

Inda quando tão casto se esvai,
Ao abandono do ser, ao olvido,
Ao infeliz desterro no âmago

Limbo desprovido que se me torna.

sábado, 27 de junho de 2009

Espelho do Toucador

Quando uma mulher se solta
e aos seus cabelos longos
algo acontece de se ver
de se ver, não de se tocar.
É que o mundo se acende no ato
e, luminescentemente clareia
aplacando à qualquer cizânia
quando a Penélope se penteia.
Dá-nos a vida, um fugaz momento
no vislumbrar da mulher
aos aprontos para o adormecer.
Não é o corpo, receptor de todo engano
nem a noite, suave fim da chegança
mas sim, o gesto da mulher ao toucador
um dar de mãos displicente
lânguido e lancetador
deslizando seus dedos sobre as melenas.
Este é um sublime alumbramento
que conduz à idéia de perfeição
à qual costumamos olvidar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Conversa por sobre o oceano que nos separa e une


MEU IRMÃO BRASILEIRO


Língua da minha língua
braços dos meus abraços que vão e vem do mesmo mar
que nós une, que nos continua gota a gota
uns dentro dos outros

como o bruar das suas ondas
ondas dentro das ondas
até o confim dos tempos

Eco do meu falar a língua mãe
no seu berço hoje amordaçada

Meu irmão brasileiro...

Levo na boca um cantar que há tempos fica calado.
ao peito acode apenas pranto

Levo na fronte uma estrela cuja luz se quer ir apagando
mesmo ela não querendo...

Meu irmão brasileiro...

Deixa-me que te conte...
se tu me miras eu me vejo
se tu me falas eu me ouço
e mesmo que o mundo
me quiser negar a voz,
eu falarei

se tu me ouves eu falarei...

e talvez assim se me cure esta incurável saudade

Meu irmão brasileiro...


Concha Rousia, Galiza


MINHA POETA GALEGA


Pois que te deixem falar
a língua matter, qual palmae
ou carvalho a fertilizar os tempos
em seu entorno.

Os teus falares têm ainda a dicção
do latino verbo fundador do pensamento
e de nossa forma de amar ao outro
e a natureza.

Que te deixem azular este céu
com as tuas palavras castiças
que me levam neste momento
aos bosques profundos
da profunda Galiza.

Palavras, pois, que nos unem
sobre este mar de tonalidade
verde profundo.

Deixem-te às palavras
que perduram, ao limbo
das exigências vãs da política
do vernáculo e da vaidade
para que tu as resgate
e que voltem ao alumbramento
como seres sagrados da memória.

Com os teus pares, deite bela
ao ar tua lira quinhentista.
Que te deixem ao direito de existir
irmã galega, em tua língua, tua história
tua identidade, tua pátria primal
que também é a do meu desejo
o desejo de essência que me avia.

Se te vês cansada, lute ainda mais
Se te desanimas, não recues
do que te cabe.
Os destinos validos
são os que se projetam sobre o tempo
e ascendem, sobre as noites, os claros dias.

Aquelas que promoves
são as justas refregas
em que não cabem áis
e que tem o matiz que sabe
de tua santa indignação.

Tua idéia inarredável
ilumina homens e mulheres
de idéias, pelo mundo afora
como o pequeno
Farol de Alexandria
rasgando o véu da noite.

Ah, interstício da vida que vai
em que ao sopro vaporoso
de uma Canção de Amigo
tu me embalas no soar
de teu banjo medieval.

Pois que não te possam
calar jamais.


Ricardo Sant’Anna Reis, Brasil

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Actas para palavras proibidas

poeta sou como o rapace de palavras e as roubo assaz quando as pego cruzando pélagos em asas lépidas de melra levando ao bico as mensagens de salvação da alma e quando não são as melras são as enguias com sua escorrencia original espargimentos elétricos e ciclonicos da nivia linfa imponderável e das linhagens universais quero as palavras de essência esquecidas nos léxicos palavras que façam sentido ou não mas que eu as pilhe enquanto permeie prados viçosos e lavras e nas covas as letras mortas por mãos diáfanas plantadas no chão mesmo no assombro serão as tais palavras como plasmas fertilizantes como placentas confeccionarias de elegância sutil vibrátil e circunflexa os meus poemas são velhos como eu mesmo sou velho no mirar eu surpreendo (as palavras velhas) sobrevivendo nas sombras da caridade alheia e ao abrigo das emoções nos dizeres do povo ou enquanto palavras múmias estrambóticas sem carne sem rosto de sagas antigas como a porosidade de ossos de argonauta eu as uso no assento e na pausa reconhecível de meus versos caducos ah, Marinetti e esta velocidade progressista que me atropela se me cortam as palavras fazem-me impassível eunuco ah, esta cidade-limite em flor os meus versos, como foi dito pelos que supostos lhes sabem não são poética excedidos e anacrônicos que são desconexos de um tempo presente ainda roubo palavras de uns poetas barrocos d’alemar que as tem por perto mas que a vaidade não se lhes permitem que se dêem conta de que o poema é sempre maior do que o poeta só me pugno por um tempo que me seja válido que não permaneça estático que só se o pressentissem na evanescencia d’alma ou em um murmúrio infiel de esquálido e expurgado afeto ah, as palavras como as desejo! sobrevoam benditas ou malditas como pássaros soluços na solidão da noite ao balouçar de um tisnado pessegueiro de jardim palavras internas na brisa da madrugada ah, ai de mim, minha fada! como se me faz triste saber tantas formas abandonadas no lixo da história como flores que são murchas restos de palavras nunca ditas que jamais se exercerão renovadas

Ricardo S. Reis & Claudia Gonçalves

domingo, 17 de maio de 2009

A INTEIREZA DO SER



Supondo-me inteiro
Inteirastes-te de mim
Eu que me havia parvo
Canhestro e cobarde
Sombra perdida de exilado
Serafim.

Tentastes, então
A leitura ilesa
Dos signos
Por fim
No transluzir
Do éter de minh’alma.

Qual nada.
Eu era pura opacidade
Nenhuma inteireza.
Delirante
Acostumei-me
Ao sentido de ser metade.

Quisera eu, meu amor
Ser possuído
E por inteiro
Por uma infinita verdade.



A DUALIDADE DA VIDA


A vida, meus senhores
Não é assim tão leve
Não se a vive impune.

A vida, senhores
É o cume, acúmulo
Afiado gume do amar
Semibreve instante
Num circo de horrores.

Ah, mas não é que seja sempre.
A vida mesmo não se lhe pesa
Se do viver se quer apenas
O devanear.
E se a flama é toda
Num momento
De não sobrar
Para fiar penhores.

Fez-se dual a parcela de amor
Que coube em uma vida
Ora opaca ou transparente.
Se em uma hora
Se quer morrer de dor
Noutra, já nada mais se sente.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

IRA


Por vezes me toma tal calor
Que de grande
Me arde por dentro
Quase que o fogo do inferno
Queimando-me; e eu não me agüento.

Às vezes se introduz neste ardor
Em meu intimo, o veneno melífluo
E viscoso a que chamam de Amor.
Ah, vicio nefasto qual cocaína.

Ah, este sentir que queima de fulgor e medo.
Eterna sina, divina e perene pira.
Ah, este sentir que calcina a alma inefanda
A obscuridade do Amor, tornado em Ira.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O TREM DE FERRO


O trem que, menino
do Rio de Janeiro me levava
rompia ventos com a impaciência
que ao fim da jornada antecipava.

Café-com-pão, piiuuiiiiiiii...

Apenas eu ia absorto e inteiro
e o maquinista
na curva, ia apitando.

Eu só imaginava, pois que não existia
(não se via) nenhum maquinista
nem curva.

Havia somente o dia se dissolvendo ligeiro.
Olhava pela janela e engolia com o vento
o momento passageiro.

Não dava contas
na viagem
dos contornos da serra mineira
(que agora recupero na lembrança)
disperso que estava na sacolejante
monotonia da paisagem.

Súbito, como no sonho d’Alice
o meu olhar se fixava na casa pobre
de taipa, que se via
bem no meio da planície verde.

A casa, já entrada no escuro da noite
pela lenha que ardia no fogão
em magia, se alumiava.

Tinha um olhar conspícuo
(a casa) um olhar de eternidade
e vigiava o trem de ferro
em que também viajavam
as minhas conjecturas
de criança
inócuas, inócuas.

E o trem, já então na lonjura
com a pressa da chegada
ainda, em cada curva
parecia que apitava.

POEMAS ETERNOS AO VENTO


Ode à Neftalí Ricardo Reyes Basualto (Pablo Neruda).


Os ares madrigais que varejam o atlântico, dizem, poeta
de seus disseminados ventos, andinos, cegos, ressonantes
ventos que percorrem prados altos, plantações de trigo
e que balançam os longos cabelos das moças índias.

Há tempos que tais ventos vagueam por liberdade
esta musa, que, perseguida pelos infames é almejada
pelos poetas e vive no anseio que não se finda
dos povos do americano continente.

Procuro-te poeta pelos charcos clandestinos
pela pátria esquecida, pelos rios, veias rubras d´aurora.
Sobre igarapés, voam colibris e maritacas buscando o néctar
e os grãos. Já os visionários, seguem em direção ao poente.

Faz-nos falta o poeta da fome e da chuva, o poeta dos estios
da crepuscular dinamite, o pavio, o poeta das visagens telúricas
da noite, alpinista dos altiplanos de versos solares e sombrios.

Saciedade é a palavra que te revela
no alentado sentimento hermano.
Vida que cantastes em odes cheias
à labuta nas minas de cobre, estanho e carvão.
Que cantastes na canção do sal, nunca hermético
ao sentir dos injustiçados.

Teu poema argila vai modelando a vida
processando no desejo da luta líquida e contínua
e é servido em arpejos de anjos
para a consumição existencial.

Diz-me poeta de Antofogasta e de Parral:
- Que lhe diz a meia-noite profunda?
Tenho chorado, tenho chorado!
Teu povo americano (já éra hora) quer de novo canta-lo
numa ária gauchesca
como pluma atonal
num canto que enseje o poder de alcançar-te
nas plagas do ateu firmamento em que habitas
o poema eterno.

É hora de levar-te em passeio, do Chile às Minas Gerais
em visita a outro poeta, de outra tragicidade, de alma mineral
como a tua, plena de ferro e nuvem.

Retirar-te-ia um pouco de tua navegação
no sombrio pacifico de águas frias e perigosas
onde velejas como gostas, guardião de fronteiras
do Ethos latinamericano em formação.

Teu barco, teu verso de serenas sedas enfunadas
nos mares canônicos da beleza ocidental.
Odisseu redivivo de esperanças, deves ver de novo
os grandes condores do sul continente, aos pés da Patagonia.

Estes pássaros estão descendo
as paredes de montanhas de tua pátria
para selar o teu testamento de amor.

Escrevestes na consciência do tempo tuas odes
teus poemasde amor, promessas de um arrebol sem vilipendio.
Ecoam hoje sobre as nuvens das sensibilidades
no farfalhar da feira de Valparaiso
ou na Europa Setentrional
e também aqui no Brasil
de onde te revisito em poesia e pensamento.

Há um canto novo que todos os que quis ver irmanados
cantarão a uma só voz; toda a vida na mesma elegia.

E devemos cantar o poeta, antes mesmo que a poesia.
Vejo os ativos obreiros na zona industrial.
Vem e vão à construção de casas ricas
subindo paredes nuas.

Vejo crianças correndo à sorrelfa
mulheres livres e as moças pudicas
fervilhando pelas ruas.

Pergunto a ti, poeta: - Desde quando se descobriu
amando assim a teu povo? Onde mais é que se viu
um amor assim, tão probo? Um amor profundo, Isla Negra.

Aquele que te esqueceu, agora te reconhece
no cimo dos edifícios, cordilheiras urbanas
no lácio, nas oficinas...

Teu nome é cantado nas publicas Ágoras de maio
por gerações operarias no mundo inteiro.

Mas nós só pudemos cantá-lo hoje, pois o Chile tricolor
mereceu o esquecimento, a fuga das consciências relevantes
e esteve entregue a uma elite vil e conservadora.
Morreu o Chile da Unidade Popular, quando mataram a tua presença
e juventude, quando se calou Violeta Parra
e da lira maiakoviskiana de Vitor Jarra
fluiu a sua toda essência na dor do povo dizimado.
Morreste tu, oh, poeta, para ficardes etéreo
e vigilante como a um andino vento.

Um dia, há poucos anos, a TV mostrou-nos juizes ingleses dando motivos
desde o centro do império, para crer na justiça: - O monstro do Chile
perdia as suas imunidades!

E antes que as recuperasse por artes da política
em nome da “normalidade democrática”, rimos, gozamos
e nosso maior regozijo foi ver as mães ofendidas no ventre
no grito calado e no olhar triste, roubadas nas noites insones
sorrirem, sorrirem, em um muito franco sentir de alegria.

Agora nos dizem os jornais: - O maléfico verdugo do Chile
chega aos seus estertores! Que morra logo, tal verme
e leve sua semente para um solo calcinado
para que não corramos o risco de que lhe fique lembrança.

Desce aos infernos, carrasco! As humilhações do inglês desterro
em nada se comparam à orfandade promovida
crianças ensurdecidas de medo
para as quais o Lacaio dos Ianques
destampou a Caixa de Pandora
obrigando-as a que ouvissem os lancinantes gritos dos pais
cantantes da humana ventura chilena.

Tomemos um vinho do Valle Central, poeta
pois a dor que durou decênios
anuncia que a nossa fraqueza
não é mais do que força e virtude.

Não durou, o morto-vivo, mais que tu
que perduras eternamente, poesia, mais que poeta.

Sepultemos estes tempos no eterno esquecimento
a mais humana das soluções.
Nossa flama pequenina vai agora florescer.

Vem poeta Neruda, venha ver!
Acorde também a Allende
para o renascimento do Chile.
Já se derramam pelas cordilheiras
quedas de lirismo (aonde antes
só dor e desesperança), águas que vão
ao coração do pacifico
encontrar com os ventos nobres
de Frida Khallo, que vem vindo, vem vindo
desde o Valle do Yucatan
de onde a voz da liberdade, ainda nos pode alcançar.

Evoé!

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Ricardo Sant'Anna Reis 21.9170-9004

Ricardo Sant'Anna Reis  21.9170-9004
"rondava a rosa à poesia pelos jardins das flores tanto mais diversa a rosa quanto mais forem os amores". Sociólogo, poeta e editor, publiquei em antologias e recebi alguns premios literários. Tenho dois livros: "Diario da Imperfeita Natureza" e "Derradeiro Prelúdio" (no prelo). Pretendo aqui interagir com voce sobre poesia ou qualquer outro assunto relevante.

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